Por Marco Severini — Em um estudo que funciona como um movimento estratégico no tabuleiro da segurança alimentar europeia, a coalizão PAN Europe revelou que cerca de 85% das maçãs analisadas em 13 países apresentam resíduos de pesticidas em níveis que preocupam ativistas e especialistas. A amostragem aleatória, composta por aproximadamente 60 frutas compradas em países como França, Espanha, Itália e Polônia, aponta para uma combinação de fatores químicos que expõe as fragilidades das atuais políticas regulatórias.
A análise técnica identificou, em muitos casos, até sete substâncias químicas distintas por amostra. No conjunto, 71% das amostras continham pesticidas classificados pela União Europeia como ‘candidatos à substituição’, ou seja, compostos que deveriam ser progressivamente eliminados do mercado por apresentarem riscos elevados. Ademais, 64% das maçãs traziam traços de PFAS (substâncias per- e polifluoroalquiladas), conhecidas como ‘químicos eternos’ pela sua persistência ambiental e bioacumulação.
O ponto de tensão que PAN Europe enfatiza é o chamado efeito coquetel: a exposição simultânea do consumidor a múltiplos resíduos químicos num único alimento. Martin Dermine, porta-voz da coalizão, criticou a abordagem da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA), que tradicionalmente avalia pesticidas de forma isolada, e não a combinação de riscos decorrente da exposição múltipla. ‘Mostramos que 85% das maçãs apresentam resíduos múltiplos e não sabemos se isso é seguro’, afirmou, associando a exposição crônica a potenciais riscos como câncer e problemas reprodutivos.
Outro dado revelador do levantamento é que, se as mesmas maçãs fossem processadas como alimentos infantis, 93% das amostras seriam proibidas devido aos limites mais rigorosos aplicados a produtos destinados a crianças menores de três anos. Esse diferencial normativo sublinha a sensibilidade do organismo infantil e a intenção legislativa de proteger fases críticas do desenvolvimento.
Para mitigar riscos imediatos, PAN Europe recomenda a compra de maçãs orgânicas ou, alternativamente, o descarte da casca antes do consumo das frutas convencionais. Entretanto, como em toda grande geopolítica alimentar, a solução não se reduz apenas ao comportamento do consumidor: trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis entre agricultura, indústria química e segurança pública.
As maçãs são, ao lado das bananas, uma das frutas mais consumidas na Europa e cultivadas em larga escala em países como Polônia, Itália e França. São, igualmente, entre as mais tratadas com pesticidas — um dado que exige atenção dos formuladores de políticas. A descoberta de PFAS nas amostras abre outro capítulo: a presença desses compostos indica vetores de contaminação que vão além do campo, abrangendo cadeias de produção, embalagens e ambiente.
Como analista, vejo este relatório como um movimento decisivo no tabuleiro regulatório: há um chamado claro para que as instituições europeias considerem a técnica do coquetel na avaliação de riscos e para que se fortaleçam os alicerces da diplomacia regulatória em matéria de segurança alimentar. O futuro da confiança pública dependerá da capacidade de traduzir evidência científica em políticas que garantam saúde sem desestabilizar a produção agrícola — um equilíbrio de arquitetura complexa que exige visão estratégica e coragem política.






















