Um ano depois da última sessão de quimioterapia, a modelo Bianca Balti compartilhou nas redes sociais uma reflexão íntima que transforma a trama pessoal em um pequeno espelho do nosso tempo. Num vídeo documental, mês a mês, ela registrou a perda e a reconquista dos fios — um arquivo corporal que é também um roteiro emocional.
Balti, que anunciou em setembro de 2024 a doença — um câncer de ovário em estágio 3 —, e portadora da mutação genética BRCA1, havia passado anteriormente por uma mastectomia preventiva em 2022. No post, a modelo lembra a data simbólica: 28 de janeiro de 2025, quando viveu a última sessão de quimioterapia.
“Um ano atrás foi minha última quimioterapia”, começa ela, apontando para um momento que passou sem alarde. “Nenhum sino. Nenhuma cerimônia. Por motivos que ainda me deixam triste, aquele momento passou em silêncio — e deixou um gosto amargo que ainda carrego.” A franqueza com que descreve a ausência de ritualidade expõe um ponto que vai além da biografia: como marcamos (ou esquecemos de marcar) as transições que alteram nossos corpos.
No vídeo anexado, Bianca Balti mostra, sem filtros, a trajetória dos seus cabelos: a queda, o começo da rebrota, mês após mês. “Aqui estamos. Este foi o meu percurso. Sem produto. Sem maquiagem. Cresceu mais denso… e muito mais cacheado do que jamais foi”, escreve ela, numa ode à materialidade do próprio corpo. “É selvagem, um tanto indomável, e eu o amo mais do que consigo explicar.”
Há uma bela imagem semiótica nesse gesto: os fios como legenda do corpo que insiste em permanecer. Para Balti, cada fio novo é um lembrete diário de que “meu corpo sobreviveu”. Ela conclama os leitores com um pedido simples e simbólico: “Nunca subestime o cabelo. Se você está lendo isto, faça-me um favor: beije-o, diga ‘te amo’ e agradeça.”
Como observadora cultural, penso que essa narrativa vai além da experiência individual da modelo. Ao expor o processo íntimo de reconstrução, Balti nos convida a reavaliar os ritos de passagem contemporâneos — a ausência de cerimônia ao fim de um tratamento, o valor simbólico do corpo que se altera, e a maneira como a imagem pública reconstrói sentido em tempo real. É o roteiro oculto de uma sociedade que, tantas vezes, prefere a velocidade da notícia ao silêncio do cuidado.
Se o universo da moda e da visibilidade costuma oferecer apenas a versão polida da resiliência, a postagem de Bianca Balti devolve um detalhe essencial: vulnerabilidade também é ato de presença. E os cabelos, nessa narrativa, tornam-se não só um traço estético, mas um mapa afetivo de sobrevivência.






















