Porkchop ganhou esse apelido carinhoso porque, mesmo após uma cirurgia delicada, come com voracidade — um sinal precioso de recuperação. Resgatada presa a uma linha de pesca fantasma no leito do rio San Gabriel, ela recebeu cuidados no Aquário do Pacífico, em Long Beach, e agora se prepara para voltar ao mar: treina em uma grande bacia para reaprender a nadar com apenas três nadadeiras.
A história de Porkchop é, antes de tudo, um relato de resiliência e de ação comunitária que ilumina caminhos para a conservação. A tartaruga pertence à espécie conhecida como tartaruga verde — a mesma de personagens como Scorza e Schizzo de “Procurando Nemo” — e foi encontrada por voluntários do programa Southern California Sea Turtle Monitoring, coordenado pelo aquário. O local do salvamento, o rio San Gabriel, abriga centenas desses quelônios, mas também é um canal imerso em uma paisagem fortemente urbanizada, entre Los Angeles e Anaheim.
As pressões humanas — da navegação de recreio ao desperdício e à pesca amadora — tornam o trecho que deságua próximo ao movimentado porto de Alamitos Bay particularmente arriscado. No caso de Porkchop, não foi um anzol de lazer que a fisgou, mas uma lenza perdida — uma armadilha silenciosa conhecida como equipamento de pesca fantasma. Enrodilhada entre algas, detritos e organismos que se agarraram à linha, a tartaruga acabou imobilizada quando sua nadadeira anterior direita ficou presa. Na tentativa de se soltar, os movimentos só apertaram o laço até cortar a circulação. Quando os voluntários a encontraram, a ponta da nadadeira já estava irremediavelmente comprometida. Os veterinários do aquário, para evitar infecções e sofrimento, optaram pela amputação.
Hoje, em um tanque controlado, Porkchop treina para readaptar sua natação com três nadadeiras. A equipe de reabilitação monitora sua alimentação — que segue farta e diversificada — sua condição física e sua habilidade de mergulho e recuperação. O objetivo é claro: que ela retome forças suficientes para ser devolvida ao oceano e reintegrar-se ao grupo de tartarugas livres.
O Aquário do Pacífico, além de ser referência no resgate e reabilitação de quelônios marinhos, mantém projetos científicos como o de salvaguarda do tubarão-zebra, uma espécie entre as mais ameaçadas. A trajetória de Porkchop chama atenção para um problema maior e menos visível: as consequências das atividades humanas sobre a biodiversidade costeira e a necessidade de práticas responsáveis, do manejo de lixo à pesca recreativa consciente.
Enquanto a equipe prepara os próximos passos da soltura, a recuperação de Porkchop nos lembra que a compaixão e o conhecimento técnico podem abrir clareiras de esperança. Como curadora de histórias de transformação, enxergo neste caso a possibilidade de semear novas ações: educação ambiental, políticas de redução de equipamentos de pesca perdidos e a cultura de cuidados com nossos mares. Que a jornada de Porkchop ilumine caminhos para que outros animais encontrem chance de renascer e nadar livres novamente.
Em breve, se tudo correr bem, veremos essa tartaruga verde deslizar de volta ao horizonte salgado — um pequeno renascimento que simboliza o impacto coletivo de mãos, corações e ciência unidos em prol da vida marinha.






















