Mps avalia pagamento de até €2 milhões a Vittorio Grilli como presidente da Mediobanca
O conselho de administração da Mps iniciou um exame interno sobre a proposta de um pacote remuneratório para Vittorio Grilli, recém-nomeado presidente do conselho de administração da Mediobanca após a tomada de controlo pela instituição toscana em setembro passado. Em análise está uma proposta — ainda não definitiva — que fixaria a remuneração anual em torno de 2 milhões de euros, valor substancialmente superior ao patamar atualmente atribuído ao presidente do banco controlador.
Vittorio Grilli, com passagens por ministérios e longa experiência internacional, assumiu a presidência de Mediobanca em conjunto com o administrador delegado Alessandro Melzi d’Eril, no quadro da nova governação pós-aquisição. Hoje, a remuneração atribuída a Grilli ronda os 900 mil euros por ano; a proposta em discussão multiplicaria esse valor, situando-o entre os presidentes com maior compenso no setor bancário italiano.
O pedido foi submetido ao comitê de remunerações da Mps, que optou por suspender a decisão até concluir avaliações mais detalhadas, incluindo benchmarking de mercado e a ponderação das sensibilidades internas do grupo. Fontes internas indicam que parte da administração e alguns membros do comitê manifestaram reservas, especialmente face ao alinhamento com os níveis remuneratórios de outras instituições financeiras de relevo nacional.
Um compenso dessa dimensão colocaria Grilli bem acima das retribuições dos homólogos nas grandes entidades bancárias italianas, reacendendo atenções nos centros financeiros e também no debate público sobre governança e incentivos nas instituições sistémicas, como Mps e Mediobanca. A controvérsia pelo pacote proposto insere-se num momento de escrutínio acrescido sobre estruturas de governação, transparência e critérios de alinhamento entre remuneração e desempenho a longo prazo.
Do ponto de vista operativo, Mediobanca tem apresentado performances sólidas sob a presidência de Grilli, com indicadores de receita, resultados e captação que resistem ao atual ambiente competitivo. Esses elementos são invocados a favor da revisão retributiva, considerando ainda a complexidade da integração do grupo após a aquisição e a necessidade de preservar estabilidade e continuidade executiva.
Como analista de relações de poder e estratégia, vejo este episódio como um movimento num tabuleiro maior: é um teste às fundamentações institucionais da nova arquitetura do capital e da governação. A proposta de elevar a remuneração de Grilli é simultaneamente um instrumento de retenção de talento executivo e um potencial catalisador de críticas externas — sobretudo se a dissonância entre políticas internas e percepções públicas não for gerida com rigores de transparência.
O comitê de remunerações deverá, portanto, pesar três vetores: o benchmarking com pares nacionais e europeus; os resultados operacionais e as necessidades de integração; e a gestão do risco reputacional numa conjuntura em que a tectônica de poder entre grupos bancários está a ser redesenhada. A decisão final dirá mais sobre a estratégia de consolidação e influência da Mps do que apenas sobre um único contrato.
Enquanto a decisão permanece em suspenso, vigora a necessidade de equacionar não apenas o montante, mas mecanismos de ligação entre compenso e objetivos de longo prazo, cláusulas de clawback e métricas de sustentabilidade financeira e de governança. No xadrez institucional, cada peça movida agora poderá definir, nos próximos anos, os alicerces da autoridade e da legitimidade do novo eixo que se configura entre Mps e Mediobanca.






















