Por Stella Ferrari — 27 de janeiro de 2026
Em um movimento que reconfigura o motor da economia global, a União Europeia e a Índia assinaram um acordo de livre comércio que reduz drasticamente tarifas e abre um corredor privilegiado entre dois dos maiores mercados do planeta. A assinatura, feita pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e pelo primeiro‑ministro indiano, Narendra Modi, foi descrita como “histórica” pela liderança europeia e representa uma calibragem de políticas comerciais após anos de negociações.
O pacote negociado cobre cortes tarifários estimados em cerca de €4 bilhões para exportações europeias. Entre as medidas mais sensíveis para setores de luxo e industriais, destacam‑se reduções dramáticas sobre:
- Automóveis: tarifas que chegavam a 110% serão reduzidas para 10%;
- Vinhos: tributos que alcançavam 150% cairão para 20%;
- Azeite: tarifas de cerca de 45% serão anuladas.
Além desses cortes emblemáticos, a Índia removerá aproximadamente 97% das tarifas aplicadas aos produtos da UE. Ficará protegido apenas um leque restrito de produtos agrícolas destinados a preservar o mercado interno, reconhecidamente sensível. Ainda assim, itens de maior valor agregado dentro do setor alimentício, como os vinhos e o azeite supracitados, foram incluídos nas reduções.
O acordo também contempla reduções significativas em outros setores estratégicos: equipamentos médicos e ópticos terão tarifas reduzidas para 90% dos produtos; materiais plásticos e itens de joalheria (metais preciosos, pérolas) terão tarifas zeradas para 20% dos casos e diminuídas em mais 36% dos casos. Existem ainda medidas para aço, aeronáutica e veículos espaciais — setores em que a sincronização industrial entre blocos é uma questão de design de políticas com efeito de longo prazo.
Do lado europeu, a Comissão confirma o fim do Sistema de Preferências Generalizadas (SPG) para a Índia e a eliminação dos poucos direitos restantes em 99% das categorias. A exceção permanece no núcleo agrícola, onde os “freios fiscais” permanecem como proteção para agricultores locais.
Von der Leyen, acompanhada pelo primeiro‑ministro português António Costa entre outros membros da delegação, esteve em Nova Delhi como convidada das celebrações da Festa da República antes da assinatura dos acordos comerciais. A presença europeia em solo indiano sublinha a intenção política de transformar esse pacto em eixo de aceleração das trocas bilaterais.
Em termos práticos, empresas europeias do setor automotivo e de bens de luxo ganham uma vantagem competitiva única dentro do mercado indiano, com redução imediata de barreiras que poderão aumentar exportações e investimentos. Para gestores e investidores, o desafio será ajustar a estratégia de entrada, logística e precificação para aproveitar a janela aberta por este tratado.
Como estrategista que acompanha o pulso dos mercados globais, observo que este acordo não é apenas um alívio tarifário: é uma redefinição da relação entre duas economias gigantes, com impacto sobre cadeias de valor, políticas industriais e fluxos de capital. A calibragem correta das empresas e dos formuladores de políticas será determinante para transformar essa aceleração comercial em crescimento sustentável.






















