Marco Severini — Em um movimento que altera, ainda que gradualmente, o mapa de forças do setor automotivo global, Tesla divulgou resultados que misturam surpresa técnica e sinais de erosão estrutural. No quarto trimestre de 2025 a empresa apresentou lucro ajustado por ação de US$0,50, superando o consenso de US$0,45, enquanto a receita trimestral alcançou US$24,9 bilhões, levemente acima das estimativas, mas inferior aos US$25,7 bilhões do mesmo período de 2024.
O dado mais significativo, porém, é o desempenho do exercício completo: pela primeira vez na sua história a Tesla registrou uma queda anual de receita, que diminuiu 3% para US$94,8 bilhões, ante US$97,7 bilhões em 2024. Trata‑se do segundo ano consecutivo de contração dos resultados, um sinal de que os alicerces do modelo tradicional de negócios da companhia enfrentam uma tectônica de poder adversa.
No núcleo operacional, o segmento automotivo permanece sob pressão. As entregas de veículos caíram 16% no quarto trimestre e 8,6% no acumulado do ano. As receitas da divisão automotiva recuaram 11% no trimestre, reflexo de demanda estagnada e de intensa competitividade — em especial da concorrência asiática, com a BYD assumindo papel destacado na China, corroendo fatias de mercado que antes eram robustas para a Tesla.
A rentabilidade mostra deterioração mais aguda: o lucro líquido trimestral despencou 61%, para US$840 milhões (US$0,24 por ação), contra US$2,1 bilhões (US$0,60 por ação) no mesmo intervalo do ano anterior. Esse recuo foi agravado por um salto de 39% nas despesas operacionais em termos anuais.
Durante a apresentação dos números, Elon Musk deslocou o foco estratégico para iniciativas emergentes, destacando projetos de robotaxi e o desenvolvimento dos robôs humanoides Optimus, os quais, segundo Musk, podem chegar ao mercado até o fim do ano. Trata‑se de uma jogada de diversificação: apostar em novas frentes tecnológicas para compensar o abalo no core automotivo é um movimento tático que altera o tabuleiro da companhia.
Nos negócios de mercado, a reação foi de curto prazo positiva: nas negociações after‑hours, as ações da Tesla subiram cerca de 2,7%, sustentadas pela surpresa positiva no EPS e pelas promessas de crescimento futuro nos segmentos emergentes. Entretanto, como todo bom estrategista no xadrez geoeconômico sabe, um ganho pontual não substitui a necessidade de reposicionar peças diante de pressões competitivas persistentes.
Em resumo, os resultados de 2025 revelam uma companhia em transição: resultados operacionais pressionados no presente e apostas de alto risco para reconstruir o futuro da receita. O movimento que hoje parece defensivo poderá, amanhã, redesenhar linhas de influência na indústria automotiva global — se as novas iniciativas vencerem a prova de mercado.






















