Marco Severini — Em um cenário internacional cujo solo se move como um tabuleiro sob ventos tectônicos, o relacionamento que sustentou a ordem ocidental desde 1945 mostra rachaduras profundas. O vínculo transatlântico, antes alicerçado em paridade normativa e consulta recíproca, evolui para uma configuração marcadamente hierárquica: a Europa deixa progressivamente de ser coautora das políticas de segurança coletivas para tornar‑se um espaço a ser gerido de acordo com prioridades estratégicas definidas em Washington.
Esta transformação não é meramente semântica. Trata‑se de um redesenho prático das linhas de comando e da alocação de agência política. Em conflitos que dizem respeito ao coração da segurança europeia — da Ucrânia à Groenlândia — as decisões de fundo transitam como questões eminentemente americanas: a Europa contribui com meios, dinheiro e sacrifício político e social, mas raramente permanece no centro da definição dos objetivos finais ou das saídas negociais.
No teatro ampliado do Médio Oriente, a dinâmica confirma e acelera esse movimento. O aparente declínio do Irã, minado por pressões internas e externa, não resultou no preenchimento do vácuo por um parceiro tradicional ocidental. Ao contrário: é a Turquia que consolida uma presença estratégica alargada — da Síria à Líbia, dos Balcãs ao Corno de África — atuando como um pivot regional cuja influência se apoia tanto em sua pertença à NATO quanto em canais abertos com a Rússia.
Essa ambivalência turca — simultaneamente incorporada às estruturas ocidentais e capaz de negociar com Moscou — representa um movimento tático que obriga Washington a recalibrar prioridades, mesmo que isso implique sacrificar sensibilidades de aliados tradicionais. Em consequência, observamos a inquietação crescente de Israel, que percebe que seus interesses já não são automaticamente coincidentes com os dos Estados Unidos. Questões sensíveis como a gestão da Síria, o dossier de Gaza e até o reconhecimento — ou não — de territórios como a Somalilândia mostram que a Casa Branca, quando confrontada com a necessidade de preservar um aliado de massa regional dentro da NATO, pode optar por posturas que discordam das prioridades israelenses.
Vistas por um prisma russo, as recentes mutações são lidas com realismo estratégico: a permanência de bases russas na Síria sobre um regime de coexistência negociada é menos uma derrota e mais uma reconfiguração do equilíbrio local. A Turquia, ao tornar‑se ponte entre ordens e esferas, fragmenta as linhas rígidas de confronto e se instala como peça central — uma torre móvel num xadrez diplomático onde as diagonais do poder se cruzam de maneiras imprevistas.
O caso da Ucrânia e a disputa sobre a Groenlândia funcionam como cartografias de prova: quando o desígnio estratégico é americano, a Europa é chamada sobretudo a financiar e sustentar o custo da posição, não a moldá‑la. Esse deslocamento relê o pacto transatlântico do pós‑guerra: não se trata apenas da erosão de prestígio material, mas da perda de igualdade normativa que, por décadas, foi a base da coalizão ocidental.
Para a União Europeia e para os estados nacionais europeus, o desafio é duplo e exige uma resposta de desenho institucional e estratégico. Ou se recupera agência por meio de instrumentos de defesa, diplomacia e autonomia econômica — erguendo alicerces — ou se aceita passar a função de palco a um roteiro em grande medida escrito fora do Velho Continente. A alternativa é procurar arranjos que preservem soberania e relevância, sem descuidar de relações indispensáveis com Washington.
Em última análise, a transição de um relacionamento de aliados para um vínculo hierárquico é menos uma fatalidade geográfica do que uma escolha política: quem decide as prioridades, imprime o ritmo do jogo. A Europa terá de escolher entre ser peça numa estratégia concebida em outro centro de poder ou recuperar a condição de coautora do futuro coletivo ocidental. Na linguística da estratégia, trata‑se de reaver o direito de mover as próprias peças no tabuleiro.






















