Por Marco Severini — Espresso Italia
Na manhã de 28 de janeiro de 2026, uma operação da Procuradoria de Frankfurt levou agentes do departamento federal anticrime a realizar buscas nas instalações da Deutsche Bank em Frankfurt e em Berlim. Cerca de 30 investigadores à paisana entraram pouco após as 10h na sede central da instituição no centro de Frankfurt, numa ação descrita pelas autoridades como “sensível”.
As diligências, segundo comunicado oficial, focam pessoas responsáveis e empregados — por ora não identificados — suspeitos de omissões no envio de declarações obrigatórias sobre atividades suspeitas, no contexto de operações que podem estar ligadas a empresas associadas a Roman Abramovich, oligarca russo sancionado pela União Europeia. Fontes próximas à investigação apontam que o período sob escrutínio inclui transações ocorridas entre 2013 e 2018.
Em resposta imediata, o advogado do empresário afirmou que o cliente “não tem conhecimento de qualquer investigação por parte das autoridades alemãs relativa a este assunto”. A Deutsche Bank limitou-se a informar que “está em curso nos escritórios uma ação da Procuradoria de Frankfurt” e que está “colaborando plenamente com as autoridades”. A Procuradoria, por seu turno, recusou fornecer detalhes adicionais, citando a sensibilidade da operação.
Os elementos hoje tornados públicos apontam para uma investigação centrada na possível falta de encaminhamento atempado de comunicações de operações suspeitas por parte do banco, algo que, se confirmado, enquadraria o caso no âmbito de práticas de lavagem de dinheiro e incumprimento de deveres de compliance. A conexão com figuras sancionadas acrescenta uma dimensão geopolítica: o fortalecimento das regras de controle financeiro é, agora, também instrumento de execução de sanções internacionais.
Roman Abramovich, empresário de origem russa com cidadanias israelense, portuguesa e lituana, construiu sua fortuna na década de 1990 no setor de hidrocarbonetos, em particular petróleo e gás. Ex-proprietário do clube de futebol Chelsea, sua presença no tabuleiro financeiro internacional tem sido frequentemente objeto de escrutínio desde que se tornaram mais intensas as medidas punitivas da União Europeia contra oligarcas ligados ao Kremlin.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro regulatório europeu: investir o núcleo de um grande banco por suspeitas de falhas de compliance sinaliza que as autoridades não hesitarão em seguir fluxos financeiros para além das fronteiras, redesenhando fronteiras invisíveis entre finança corporativa, segurança e diplomacia. A operação também representa um teste para os alicerces da supervisão bancária alemã e, por extensão, europeia — uma tectônica de poder que pode afetar reputação, confiança e a própria arquitetura de riscos do setor.
É imprescindível, contudo, manter a precisão: até o momento não há confirmação pública de acusações formais contra indivíduos específicos, nem de provas públicas ligando diretamente transações da Deutsche Bank a ilícitos cometidos por empresas atribuídas a Abramovich. As investigações judiciais procuram apurar exatamente se houve falha no dever de notificação e em que extensão eventuais operações podem ter facilitado fluxos financeiros sob suspeita.
Para observadores de política internacional e reguladores, este episódio é um lembrete de que a governança financeira tornou-se um campo central da Realpolitik contemporânea: as regras de compliance e as sanções são agora peças de um jogo de influência que atravessa cortes jurídicos, instituições bancárias e decisões de Estado. A prudência exige acompanhamento atento das próximas fases processuais, que definirão se esta ação permanece como uma investigação administrativa e de supervisão ou se evoluirá para processos penais com repercussões internacionais.






















