Por Marco Severini — 29 de janeiro de 2026, Los Angeles
Em um movimento que pode redesenhar regras e responsabilidades no tabuleiro da tecnologia e da tutela infantil, aproximadamente 1.600 querelantes — entre famílias, adolescentes e distritos escolares — abriram, em Los Angeles, um processo coletivo contra os gigantes das redes sociais: Meta, TikTok e YouTube. A acusação central é incisiva: o design e os algoritmos dessas plataformas teriam sido projetados para criar dependência, com consequências sérias à saúde mental de menores.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento jurídico que visa não apenas reparação individual, mas a alteração dos alicerces comportamentais da indústria digital. O caso de Los Angeles sucede outro processo iniciado em Nova York há dois anos, mas amplia a escala: os documentos judiciais indicam mais de 350 famílias e cerca de 250 distritos escolares entre os demandantes, num total estimado em 1.600 partes envolvidas.
O processo-piloto que abre a via judicial refere-se a uma jovem identificada nos autos como KGM, hoje com 19 anos, que alega ter desenvolvido graves transtornos psicológicos após uso precoce e prolongado de aplicativos sociais. Segundo os advogados dos querelantes, as plataformas incorporaram técnicas comparáveis às utilizadas em máquinas de aposta e na indústria do tabaco — táticas pensadas para maximizar tempo de atenção e, consequentemente, receita publicitária.
Os pedidos dos demandantes são duplos e estratégicos: exigem indenizações econômicas e mudanças estruturais nas plataformas, incluindo padrões de segurança mais rígidos e mecanismos que limitem a exposição e o engajamento compulsivo de usuários juvenis. A ambição é estabelecer precedentes que orientem decisões futuras e imponham novas obrigações regulatórias às empresas.
Do lado das corporações, as defesas iniciais têm sido de rejeição das acusações. Executivos e assessorias jurídicas das empresas envolvidas sustentam que os produtos são meios de comunicação neutros e que fatores pessoais e sociais contribuem para problemas de saúde mental. Ainda assim, a singularidade deste julgamento reside no fato de que, pela primeira vez nos Estados Unidos, um processo coletivo em larga escala questiona explicitamente a intencionalidade do design e dos algoritmos como motores de dependência juvenil.
Para observadores diplomáticos e reguladores, o caso funciona como um teste sobre a capacidade do sistema legal de equilibrar liberdade tecnológica, responsabilidade corporativa e proteção de vulneráveis. Em termos geopolíticos, decisões judiciais em solo americano têm frequência para operar como precedentes de facto: políticas, normas e práticas que nasçam daqui tenderão a se irradiar para mercados e jurisdições aliados, alterando a tectônica do poder regulatório global.
Além do aspecto jurídico, há uma dimensão pedagógica e institucional: distritos escolares figuram como querelantes, sinalizando que o impacto reivindicado não é apenas individual, mas coletivo — com reflexos no rendimento escolar, na gestão disciplinar e na saúde pública local.
Este confronto entre famílias e as maiores plataformas digitais representa um movimento decisivo no tabuleiro contemporâneo, onde as fronteiras entre inovação, lucro e segurança pública estão cada vez mais tensas. Independentemente do veredito, o processo em Los Angeles traça linhas de debate que moldarão as próximas jogadas: regulação mais incisiva, maior escrutínio sobre práticas algorítmicas e uma possível reconfiguração dos limites entre mercado e bem-estar social.
As audiências que se seguirão serão observadas com atenção por legisladores, operadores jurídicos e estrategistas de políticas públicas. A lição estratégica é clara: quem controla os mecanismos de atenção controla, em parte, o ritmo e as prioridades da sociedade — e os tribunais agora foram chamados a arbitrar esse poder.






















