Por Marco Severini — Em um depoimento que desenha os contornos estratégicos do continente, o almirante Giuseppe Cavo Dragone, atual presidente do Comitê Militar da NATO e ex-chefe do Estado‑Maior da Defesa italiano, reafirma uma leitura realista e calculada do teatro de segurança europeu. Para Cavo Dragone, a aposta em um exército europeu não é o caminho: o movimento adequado é aprofundar formas de cooperação militar entre a Europa e os Estados Unidos, mantendo a barra firme na política de **dissuasão**.
Falando ao Corriere della Sera, o almirante — na função há um ano — traça uma cartografia das prioridades que orientam a ação da Aliança: no centro do tabuleiro está, invariavelmente, a **ameaça russa**. Desde 2022, diz ele, essa ameaça guia a estratégia coletiva. A resposta, na sua ótica, passa pela continuidade da **dissuasão** e por uma distribuição mais equitativa dos encargos de defesa, um ponto que os Estados Unidos pressionaram com vigor e que, segundo Cavo Dragone, resultou em avanços concretos durante o último cume de Haia.
Sobre a ideia de um exército europeu, o almirante usa a prudência de quem lê a posição das peças antes de as mover: em vez de buscar uma nova instituição que poderia desagregar responsabilidades, é mais eficaz cultivar novas formas de cooperação militar transatlântica. Em termos de arquitetura estratégica, trata‑se de reforçar alicerces comuns e redes de interoperabilidade, não de levantar estruturas paralelas que possam criar fricções na tática aliada.
Ao comentar as tensões políticas internas na Aliança — inclusive as críticas e ataques públicos do ex-presidente Donald Trump — Cavo Dragone adota um tom de diplomata: oficiais aprendem a deixar as declarações decantar. Ele não identifica uma crise estrutural; ao contrário, avalia que o debate público e os chamados stress tests fortaleceram a coesão da NATO.
O almirante chama igualmente atenção para a crescente importância do Ártico. O derretimento das calotas, a abertura de novas rotas comerciais e o acesso a recursos antes inacessíveis redesenham fronteiras invisíveis e atraem a reativação de bases e testes de capacidade militar, notadamente da parte russa. “Os russos não vão ao Ártico apenas para observar focas e ursos”, observa, lembrando a reabertura de instalações e a introdução de novos sistemas de armas.
Quanto à guerra na Ucrânia, a leitura é de progressão lenta e limitada. “A Rússia avança a passos mínimos”, diz Cavo Dragone, e não alcançou os objetivos estratégicos ambicionados em 2022. A expectativa de ganhos rápidos, baseada em percepções geopolíticas equivocadas sobre o estado da NATO após a saída do Afeganistão, evaporou. Em contrapartida, a reação aliada tornou a Aliança mais robusta e resiliente.
Em suma, o diagnóstico do almirante é de realismo estratégico: reforçar a **dissuasão**, aprofundar a cooperação transatlântica, ajustar responsabilidades financeiras e operacionais, e monitorar áreas de tensão emergentes como o Ártico. É um apelo à manutenção de posições estáveis no grande tabuleiro geopolítico, onde movimentos precipitadamente simbólicos podem comprometer a capacidade operacional e a unidade que hoje sustentam a paz e a segurança europeia.






















