Por Riccardo Neri — A estratégia pública da Meta mudou de rumo: em vez de insistir no conceito exclusivo do metaverso, a empresa concentra esforços em um modelo de conteúdo impulsionado por IA. Em reunião com investidores, Mark Zuckerberg descreveu a inteligência artificial como o próximo grande formato de mídia — um salto comparável à transição histórica do texto ao vídeo — e apresentou uma visão em que as aplicações deixam de ser meros recipientes de recomendações para se tornarem geradores automáticos de material personalizado.
Essa mudança operacional sugere que o sistema de distribuição de conteúdo será repensado: em vez de uma linha do tempo estática montada por sinais simples, teremos um **feed** dinâmico e reativo, capaz de construir experiências sob medida. O lançamento do feed Vibes dentro do app Meta AI é um protótipo dessa arquitetura — curtos vídeos inteiramente produzidos por algoritmos que exemplificam um fluxo contínuo de remixagem automática de mídia.
Na prática, Zuckerberg propõe formatos inéditos com alto grau de interatividade e imersividade. Usuários poderão, por exemplo, criar mundos ou jogos a partir de comandos textuais, ou interagir com vídeos como se estivessem manipulando camadas de um sistema nervoso digital. Essa proposta transforma o algoritmo em uma camada de infraestrutura que entende preferências e antecipa comportamentos, otimizando o fluxo de dados entre usuário e conteúdo.
Porém, a transição tem um custo visível nas contas. A divisão Reality Labs reportou uma perda operacional de 6,02 bilhões de dólares no último trimestre de 2025 — um déficit que resultou em cortes de cerca de mil funcionários e no fechamento de estúdios de realidade virtual. Esses números mostram que, enquanto a empresa reconstrói seus alicerces digitais, parte do investimento em hardware e experiências imersivas foi redirecionado ou recalibrado.
Com receitas totais na casa dos 60 bilhões de dólares, a Meta agora procura converter sua arquitetura de IA em fluxo de caixa direto: planos de assinatura premium e novos formatos de publicidade destinados ao assistente virtual aparecem como fontes prováveis de monetização. O objetivo é transformar o assistente em um produto rentável, deslocando parte da dependência de receita publicitária tradicional para serviços personalizados.
Do ponto de vista sistêmico, trata-se de redesenhar o núcleo de distribuição de conteúdo — não apenas como uma interface de consumo, mas como uma camada ativa de geração. A consequência para usuários e reguladores é dupla: por um lado, experiências mais relevantes e interativas; por outro, complexidade crescente em termos de transparência algorítmica, privacidade e controle de dados.
Em resumo, a aposta de Zuckerberg é transformar o feed em uma infraestrutura inteligente: um motor que, alimentado por modelos generativos, reconfigura continuamente o que entendemos por mídia social. O resultado prático dependerá de dois vetores principais — a eficácia desses modelos em produzir conteúdo relevante e a capacidade da Meta de monetizá-los sem comprometer confiança e conformidade regulatória.






















