Por Chiara Lombardi para Espresso Italia — Há filmes que não envelhecem como objetos de nostalgia, mas que crescem em densidade simbólica à medida que o tempo revela o alcance de suas inquietações. Lançado em première mundial em Hollywood em 29 de janeiro de 1986 (chegando ao Brasil e a boa parte da Europa mais tarde, em setembro), Bella in rosa — conhecido internacionalmente como Pretty in Pink — celebra quatro décadas como um dos textos fundadores do cinema adolescente dos anos 80.
Dirigido por Howard Deutch e escrito pelo já falecido e estimado John Hughes, o filme encaixa-se na trilogia poderosa de olhares sobre a juventude iniciada por Sixteen Candles (1984) e The Breakfast Club (1985). Como esses exemplares, Pretty in Pink é, antes de tudo, um espelho do nosso tempo: uma comédia romântica que não esconde sua vocação para a denúncia das desigualdades sociais, da mercantilização dos sonhos juvenis e da violência sutil do conformismo.
No centro da narrativa está Andie Walsh (Molly Ringwald), uma estudante proletária no último ano do colégio, que vive com o pai, Jack (Harry Dean Stanton), homem marcado pelo abandono e pela precariedade afetiva e econômica. Andie sobrevive e se afirma através do trabalho, do humor e da reinvenção estética: costura e remodela roupas usadas, construindo uma identidade visual que é, simultaneamente, resistência simbólica e projeto de desejo.
O liceu onde ela estuda é um microcosmo de classes: os ricos de um lado, os pobres marginalizados do outro. E é aí que o roteiro de Hughes se revela mais pungente — a instituição escolar não é apenas um cenário, mas a arena onde a hierarquia social se torna afetiva, performativa e brutalmente decisiva. Andie navega entre duas figuras masculinas emblemáticas: Duckie Dale (Jon Cryer), o amigo excêntrico, vulnerável e eternamente apaixonado sem expectativas, e Blane McDonnagh (Andrew McCarthy), o rapaz de origem abastada, introvertido e dividido entre atração e medo do julgamento social.
O que diferencia Pretty in Pink de uma simples fábula romântica é justamente essa tensão entre conto de fadas e fricção social. A direção discreta de Deutch amplia a escrita autoral de Hughes, permitindo que o roteiro fale, em vez de ostentar a técnica — uma escolha que sublinha a vocação do filme para ser documento cultural: o reframe de uma juventude que, embora se expresse através da moda e da música, sofre cortes profundos na experiência de pertencimento e futuro.
Ganhou status de cult entre a geração X e, olhando hoje, surge quase profético: antecipa uma América de sonhos mercantilizados e desigualdades em aceleração — uma geografia emocional que ressoa com tensões contemporâneas. Não é apenas nostalgia; é um inventário de como a adolescência tardo‑novecentista se transformou em um campo onde se negociam classe, gênero e identidade.
Quarenta anos depois, Bella in rosa continua a nos pedir menos superegos e mais escuta do que aconteceu com os afetos públicos e privados da juventude. Ver o filme hoje é ler um roteiro oculto da sociedade: há nele humor e ternura, mas sobretudo um convite à reflexão sobre como histórias aparentemente pessoais traduzem cenários de transformação.
Ficha técnica resumida: título original Pretty in Pink (1986), direção de Howard Deutch, roteiro de John Hughes, protagonizada por Molly Ringwald, com Jon Cryer, Andrew McCarthy e Harry Dean Stanton. Um clássico que persiste como espelho e legado cultural.






















