Por Marco Severini — A investigação sobre a tragédia de Crans-Montana ganhou novo capítulo com a inclusão de um quarto indagado no inquérito conduzido pelo Ministério Público do Cantão de Valais. Fontes da emissora pública suíça RTS informam que o nome inscrito é o do chefe do departamento de segurança pública do município de Crans-Montana, que deverá prestar depoimento aos procuradores no dia 6 de fevereiro.
O enquadramento deste novo suspeito está ligado a um fato concreto: o município não teria realizado inspeções no bar Le Constellation desde 2019. Trata-se de um elemento que, na tessitura probatória, pode clarificar se houve falha institucional na supervisão de estabelecimentos que oferecem riscos ao público — uma peça sensível no mosaico causal que levou à tragédia de 1º de janeiro.
Do ponto de vista institucional, a movimentação do Ministério Público representa um reposicionamento no tabuleiro investigativo. A inclusão de um responsável municipal sugere que os investigadores estão expandindo o foco além da gestão direta do bar e dos proprietários, para analisar os alicerces da governança local e as possíveis lacunas administrativas. É um movimento clássico de quem busca compreender não apenas os peões, mas as torres e a própria arquitetura do tabuleiro.
Em Roma, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, ao ingressar na reunião do Conselho de Assuntos Externos em Bruxelas, procurou conter interpretações diplomáticas: garantiu que entre a Itália e a Suíça não houve “nenhum incidente diplomático” em decorrência da libertação de Jacques Moretti, proprietário do bar. Tajani reforçou, entretanto, a exigência de que se faça justiça e sublinhou o sentimento de perplexidade que o caso provocou entre os italianos: “Não apenas o governo, todos os italianos ficaram perplexos, porque o que aconteceu é inacreditável.”
As declarações têm dupla função: por um lado, afirmam a necessidade de responsabilização e o direito à resposta das famílias e da opinião pública; por outro, mantêm a relação intergovernamental em termos de estabilidade e respeito mútuo — algo essencial quando os laços institucionais podem afetar investigações transfronteiriças ou pedidos de cooperação jurídica.
Como analista com foco em Geopolítica e Estado, observo que episódios dessa natureza criam pequenas tectônicas de poder: não redesenham fronteiras, mas redesenham linhas de responsabilidade e confiança entre instituições públicas e privadas. A presença de um responsável municipal entre os indiciados é sintomática de um esforço por mapear essa rede de responsabilidades.
Nos próximos dias, a audiência do chefe de segurança municipal, marcada para 6 de fevereiro, será um ponto de inflexão. Espera-se que os autos esclareçam por que não houve inspeções no bar Le Constellation desde 2019 e se essa omissão teve impacto direto ou indireto na sequência de eventos que culminaram na tragédia. A atuação do Ministério Público e a reação diplomática italiana mostram que o caso, embora local, reverbera na arena pública internacional — exigindo respostas técnicas, legais e políticas.
Em suma, o movimento é claro: a investigação amplia seu alcance, e as próximas jogadas processuais dirão se o tabuleiro da responsabilidade permanecerá reduzido aos protagonistas diretos ou se alcançará os corredores da administração local. Enquanto isso, permanece a demanda pública por justiça e por respostas que restabeleçam a confiança nos alicerces frágeis da segurança pública.






















