Por Alessandro Vittorio Romano para Espresso Italia
Em um belo encontro entre observação cotidiana e investigação científica, pesquisadores da Sapienza e da Fondazione Santa Lucia IRCCS, em Roma, publicaram na revista NeuroImage um estudo que nos convida a pensar o tempo como uma paisagem: quando o relógio do cérebro não funciona com precisão, a mente recorre ao espaço para representá-lo.
Coordenado por Fabrizio Doricchi, o trabalho parte de um fenômeno familiar — gestos que fazemos naturalmente, movendo as mãos da esquerda para a direita ou de trás para a frente quando falamos de antes e depois, ontem e amanhã. Expressões como “deixar o passado para trás” são sinais de que nossa linguagem e nossos gestos já cultivam uma representação espacial do tempo. A pergunta é: essa associação é primária, uma estrutura básica da mente, ou surge como um recurso quando nosso tempo interno vacila?
Para responder, os autores aplicaram um experimento elegante e sensível. Participantes observavam estímulos visuais e deviam apertar um botão à esquerda se julgassem a duração curta e um botão à direita se a duração fosse longa. O padrão comportamental esperado — pessoas pressionarem mais rápido o botão esquerdo para intervalos curtos e o direito para intervalos longos — confirma a chamada associação espacial-temporal, conhecida na literatura como STEARC (Spatial-Temporal Association of Response Codes).
Mas a novidade veio das medidas eletrofisiológicas: registrando respostas por EEG, os cientistas observaram que a tradução do tempo em espaço emergia sobretudo quando as decisões eram lentas e incertas. Em escolhas rápidas, o cérebro parece confiar nos seus „timers” internos e a associação espaço-tempo não aparece. Já quando os sinais temporais são imprecisos — quando o relógio interno não dispara com clareza — o cérebro pede auxílio às áreas que processam informação espacial e passa a visualizar o tempo como se fosse uma distância a ser percorrida.
Em imagens mentais, é como se a mente transformasse um pulso irregular em um mapa: o intervalo se estende da esquerda para a direita, como uma estrada, um ritmo que se curva e ganha medida. Essa estratégia secundária não desmerece a complexidade do tempo interno; ao contrário, revela uma engenhosidade do cérebro — a capacidade de recorrer à “paisagem” espacial para compensar a oscilação do relógio interno.
Além do interesse teórico, as descobertas abrem janelas práticas. Entender quando e como a representação espacial do tempo é recrutada pode ajudar a compreender dificuldades em percepção temporal em condições neurológicas, refinar estratégias de reabilitação e até inspirar interfaces que usem mapeamentos espaciais para melhorar decisões temporais em contextos clínicos ou tecnológicos.
Para quem vive a Itália com atenção sensível, a pesquisa lembra que nossos gestos e metáforas — a respiração da cidade, o tempo interno que pulsa com o café da manhã — são muito mais do que ornamentos culturais: são pistas do funcionamento profundo do cérebro. Quando o relógio interno falha, a mente planta trilhas no espaço e caminha por elas, transformando incerteza em orientação.
Em suma, como em uma colheita de hábitos, nosso sistema mental semeia representações espaciais para colher sentido temporal. Essa descoberta italiana nos convida a observar com curiosidade o entrelaçar do corpo, da linguagem e da paisagem mental — e a perceber que, às vezes, o tempo é contado não só por batidas internas, mas por distâncias imaginadas na cena do mundo.






















