ROMA, 29 de janeiro de 2026 — Em uma notícia que mistura ciência e o cuidado com o solo interno do corpo, um estudo conduzido pela Fondazione Gemelli e pela Università Cattolica e publicado em Nature Medicine mostrou que o trapianto de microbiota intestinal pode aumentar a eficácia da imunoterapia em pacientes com tumor do rim avançado.
O ensaio clínico, batizado de Tacito, foi o primeiro estudo randomizado do mundo a comparar a resposta à imunoterapia após o transplante de microbiota de doadores que haviam respondido bem ao tratamento versus placebo. Foram incluídos 45 pacientes com câncer renal avançado em tratamento com a combinação padrão pembrolizumab + axitinib.
Segundo Gianluca Ianiro, investigador principal e coordenador do estudo, “a hipótese de trabalho era que transplantar um microbiota intestinal adequado pudesse melhorar a resposta à imunoterapia”. Os resultados apontaram que o transplante fecal de doadores responders incrementou a sobrevida livre de progressão e aumentou a taxa de resposta tumoral em comparação ao grupo placebo.
Roberto Iacovelli, oncologista associado da Università Cattolica e dirigente da Oncologia Médica do Policlinico Gemelli, destacou que os achados abrem uma janela para intervenções que modificam o ecossistema intestinal como aliadas das terapias oncológicas. Embora o número de pacientes seja ainda limitado, os sinais de benefício são consistentes e sugerem que a composição da microbiota funciona como um tipo de terreno biológico que pode favorecer ou dificultar a ação do sistema imune contra o tumor.
Como observador das estações internas que regem nosso bem-estar, eu vejo nessa pesquisa a confirmação de algo que vem ganhando forma: a nossa saúde é resultado de uma colheita de hábitos e microrganismos. Alterar a microbiota é como podar um jardim para permitir que as plantas desejadas prosperem — aqui, as plantas são células imunes que precisam de um solo favorável para agir com força contra o câncer.
O estudo também registrou alterações no perfil microbiológico intestinal após o transplante, associadas a marcadores imunológicos sistêmicos que podem explicar o ganho clínico observado. A segurança do procedimento foi avaliada e, nos termos relatados pelos autores, foi considerada compatível com ensaios desta natureza, ainda que trabalhos com maior número de pacientes sejam necessários para confirmar eficácia e segurança a longo prazo.
Na prática clínica, esses dados sugerem caminhos futuros: selecionar doadores com histórico de resposta à imunoterapia, estruturar protocolos padronizados de FMT (transplante fecal) e integrar biomarcadores microbiológicos na decisão terapêutica. São passos que transformarão evidência em cuidado, movendo a medicina para uma sinfonia mais afinada entre organismo e microrganismos.
Em termos humanos e não só científicos, esta pesquisa nos lembra da íntima conexão entre a paisagem microbiana e a paisagem do corpo — e de como cultivar bem esse solo pode traduzir-se em mais tempo e qualidade de vida para quem enfrenta o câncer renal.






















