Por Marco Severini — O Wall Street Journal publicou recentemente a leitura dos dados do Census Bureau referentes aos 12 meses que terminaram em junho de 2025, e o diagnóstico editorial é tanto numérico quanto estratégico. O quadro é simples: a população dos EUA continua a crescer, porém a um ritmo desacelerado — um sinal de risco para a vitalidade da força de trabalho americana.
No período junho 2024–junho 2025, o saldo migratório líquido permaneceu positivo, mas caiu para cerca de 1,3 milhão de pessoas, contra um aumento de +2,7 milhões no ano anterior (que abarcou os últimos seis meses da administração Biden). Em termos percentuais, a população cresceu apenas 0,5% nesse intervalo, o equivalente a 1,8 milhão de pessoas, chegando a um total estimado em torno de 341,8 milhões de habitantes.
O jornal conservador, porém atento à economia real e ao funcionamento do mercado de trabalho, adverte: a celebração restricionista sobre números menores de imigração ignora que uma força de trabalho em retração não torna a América mais próspera. É uma observação que devolve ao leitor a preocupação pragmática do tabuleiro: menos peças na frente produtiva limitam movimentos e opções estratégicas no longo prazo.
O editorial conecta medidas de política à queda dos fluxos legais e ao combate severo à imigração irregular: “o presidente Trump fechou a imigração ilegal e restringiu caminhos legais para entrada e trabalho nos Estados Unidos”. Não se trata de uma narrativa demográfica simplista nem de um discurso de substituição étnica; o ponto central é econômico e estrutural. Conservadores que propõem que os americanos tenham mais filhos recebem do jornal uma resposta realista: o governo não pode obrigar a nascer mais crianças.
O texto do WSJ recorda que, mesmo com ganhos de produtividade trazidos pela inteligência artificial e pela automação, haverá sempre demanda por trabalho humano em setores essenciais — saúde, encanamento, instalação elétrica, construção de moradias e laboratórios de biotecnologia, entre outros. São tarefas que máquinas podem apoiar, mas dificilmente substituir por completo no horizonte previsível.
Este debate ganha contornos mais ásperos quando confrontado com episódios recentes de tensão e violência na aplicação das políticas migratórias: o jornal menciona o episódio de Minneapolis, onde dois trinta e sete anos — Renee Nicole Goode e Alex Jeffrey Perry — foram mortos em ação do ICE, um evento que inflama o debate público e transforma números em rostos e tragédias.
Como analista de assuntos internacionais, vejo esse conjunto de indicadores como parte de um redesenho de fronteiras invisíveis — uma verdadeira tectônica de poder entre interesses econômicos, segurança nacional e pressão doméstica por controle migratório. A redução dos fluxos não é apenas um dado demográfico: é um movimento decisivo no tabuleiro que reconfigura as bases da competitividade americana e impõe um desafio prático aos seus aliados e concorrentes.
A lição é dupla e austera. Por um lado, medidas restritivas podem satisfazer objetivos políticos imediatos; por outro, enfraquecem os alicerces produtivos de médio prazo. A diplomacia da informação exige aqui um diagnóstico sereno: políticas migratórias são peças que se movem entre economia e segurança. Quem altera a posição de uma peça deve antecipar os contra-ataques e as lacunas que deixarão no tabuleiro.
Em síntese: o quadro do Census e a leitura do WSJ sugerem que a América enfrentará escolhas difíceis — entre fechar fileiras e aceitar um crescimento econômico menos expansivo, ou reabrir caminhos que garantam renovação demográfica e operária. A estabilidade futura depende de como esses movimentos serão articulados, com engenharia política e prudência estratégica.






















