Por Alessandro Vittorio Romano — A paisagem do corpo humano tem ciclos e sussurros que muitas vezes imitam as estações: há sementes de saúde que germinam cedo e sinais que florescem mais tarde. Um estudo publicado no Journal of the American Heart Association, conduzido por pesquisadores da Northwestern University Feinberg School of Medicine e liderado por Alexa Freedman, lança luz sobre um descompasso temporal importante entre sexos no surgimento das doenças cardiovasculares.
Os cientistas analisaram os dados do projeto CARDIA (Coronary Artery Risk Development in Young Adults), que recrutou adultos nos Estados Unidos entre 1985 e 1986, com idades entre 18 e 30 anos. A coorte incluiu 5.112 participantes, com idade média de 24,8 anos na inclusão, e um seguimento mediano de 34,1 anos — um período robusto que permite ver como os ritmos da vida afetam o coração ao longo das décadas.
De forma clara, os resultados apontam que os homens apresentaram uma incidência cumulativa significativamente maior de doenças cardiovasculares. Em termos concretos, os homens atingiram uma incidência acumulada de 5% cerca de sete anos antes das mulheres. O subtipo mais frequente foi a cardiopatia coronária, com incidência aproximada de 2%, ocorrendo em média dez anos antes na coorte masculina em comparação à feminina (diferença média de 10,1 anos).
Curiosamente, para eventos como acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca não foram encontradas diferenças significativas na idade de aparecimento entre os sexos.
As variações mais marcantes surgiram na chamada quarta década de vida — o período em que a cidade do corpo desperta para sinais mais firmes. Mesmo após ajustar os modelos levando em conta medidas tradicionais de saúde cardiovascular, essas diferenças persistiram, o que sugere que existem fatores adicionais, possivelmente comportamentais, hormonais ou sociais, que alimentam esse desnível temporal.
Como bem observa Freedman, as desigualdades de gênero no risco cardiovasculares tornam-se evidentes já a partir dos 35 anos: um convite claro para que a avaliação de risco e a prevenção comecem muito antes do que muitos imaginam. Se pensarmos no corpo como uma paisagem cultivada, tratar precocemente as pequenas ervas daninhas — tabagismo, sedentarismo, pressão alta, alimentação desequilibrada — é garantir colheitas mais ricas nas próximas estações da vida.
Para quem vive a Itália como eu gosto de contar — atento ao ritmo das estações e aos rituais diários — a mensagem é sensorial e prática: ouvir o pulso da própria rotina, caminhar como quem respira a cidade, escolher uma alimentação que acolha e proteger o coração desde a juventude. Programas de rastreamento e intervenções precoces, individualizados por sexo e idade, podem reduzir esse descompasso entre homens e mulheres e transformar o tempo interno do corpo em aliado da longevidade.
Em suma, o estudo CARDIA reforça que a prevenção cardiovascular não é um ato isolado, mas um cultivo contínuo — e que para os homens, esse cultivo deve começar mais cedo.





















