Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma leitura que lembra a calma após a chuva, uma nova revisão científica sugere que os mirtilos silvestres não só acariciam o paladar, mas também nutrem o corpo em vários níveis: do coração ao microbioma intestinal, do metabolismo às funções cognitivas. Publicado na revista Critical Reviews in Food Science and Nutrition, o estudo sintetiza mais de 20 anos de pesquisa clínica sobre os efeitos cardiometabólicos desses pequenos frutos azuis.
A revisão foi coordenada pela nutricionista Sarah A. Johnson, da Florida State University, e reúne achados discutidos em um simpósio internacional promovido pela Wild Blueberry Association of North America. No total, os autores analisaram 12 estudos clínicos realizados em quatro países, além de uma série de investigações experimentais e mecanísticas.
As evidências mais robustas dizem respeito à função vascular. Diversos estudos mostram que o consumo de mirtilos silvestres melhora a capacidade dos vasos sanguíneos de se dilatar e responder a estímulos — às vezes já algumas horas após uma porção, em outras ocasiões após semanas ou meses de consumo regular. Esse efeito lembra a renovação de um rio que volta a correr livremente, beneficiando todo o leito circulatório.
Há sinais promissores também em relação à pressão arterial, aos níveis de colesterol e triglicerídeos, e ao controle da glicemia, especialmente em pessoas com risco cardiometabólico elevado. Ainda assim, os autores advertem que são necessários estudos maiores e controlados para confirmar a magnitude desses benefícios e identificar quem responde melhor.
Uma parte substancial da revisão é dedicada ao papel do microbioma intestinal. As fibras e os polifenóis dos mirtilos silvestres alcançam o cólon, onde são transformados pelas bactérias em metabólitos bioativos que podem explicar muitos dos efeitos observados sobre metabolismo e circulação. Em um ensaio clínico de seis semanas, o consumo diário dos frutos aumentou a presença de bactérias benéficas, como o Bifidobacterium.
Os autores estimam que essa interação com o microbioma pode contribuir com até 40% dos compostos ativos detectados no sangue após a ingestão de alimentos ricos em polifenóis. Além disso, há indícios de benefícios cognitivos em idosos, com melhorias na memória e na velocidade de processamento mental — possivelmente fruto de uma melhor circulação e de um metabolismo mais equilibrado.
O que torna os mirtilos silvestres especialmente interessantes é a atuação simultânea em múltiplas vias biológicas: sinalização do óxido nítrico, redução da inflamação e do estresse oxidativo, e as interações entre dieta e microbioma. Os autores sugerem um consumo diário de aproximadamente uma xícara — facilmente alcançável com frutas frescas ou congeladas — como parte de uma dieta equilibrada.
Como observador dos ritmos cotidianos, vejo nesses achados uma chamada para pequenas colheitas de hábitos: integrar uma porção de mirtilos à rotina é plantar uma semente para o bem-estar futuro. Ainda assim, assim como cada estação tem seu tempo, os efeitos podem variar entre as pessoas, e serão necessários mais estudos para definir doses ótimas e identificar os indivíduos mais beneficiados.






















