Por Marco Severini — Em um gesto que combina arte, ciência e diplomacia cultural, Giovanni Sollima apresentará-se com um violoncelo de gelo no Granada Festival no próximo dia 16 de fevereiro. A performance ocorrerá no Auditorium Parque, onde a temperatura ambiente será mantida em 16 graus, condição pensada para preservar a integridade sonora do instrumento e acentuar a experiência sensorial do público.
O instrumento, criado pelo escultor e luthier norte-americano Tim Linhart, não é apenas uma curiosidade técnica: é um estímulo intencional à reflexão sobre o cambiamento climatico e, em particular, sobre o stress hídrico que hoje reconfigura paisagens e políticas públicas. O timbre que emerge do gelo, frágil e translúcido, funciona como metáfora sonora das camadas geopolíticas em deslocamento — polos que se tornam laboratórios e, ao mesmo tempo, sinais de alerta para a comunidade científica e para a opinião pública.
O concerto será acompanhado por imagens captadas por equipes de pesquisa na Antártida e no Ártico, projetadas como pano de fundo da execução musical. Essa justaposição entre som e evidência visual pretende transformar a plateia em testemunha direta de uma alteração climática que já delineia novos vetores de poder e responsabilidades entre nações e corporações.
Além da apresentação solo, o programa do festival inclui a coprodução europeia Piccolo orso e la montagna di ghiaccio, obra inédita com música de Giovanni Sollima e libreto de Giancarlo De Cataldo. Destinada a alcançar milhares de estudantes, a peça tem um propósito pedagógico claro: sensibilizar as novas gerações sobre as implicações ambientais e sociais do aquecimento global, convertendo informação em empatia e ação.
Para aqueles que não puderem comparecer presencialmente, o evento será transmitido ao vivo pelos canais oficiais no YouTube do Granada Festival e do Science Park, ampliando o alcance dessa iniciativa que combina repertório contemporâneo e compromisso científico.
Do ponto de vista estratégico, essa apresentação encena um movimento preciso no tabuleiro: a arte como ferramenta de diplomacia pública, capaz de criar pontes entre setores e moldar narrativas que pressionam por políticas mais responsáveis. O violoncelo de gelo funciona como peça simbólica — um reconhecimento de que os alicerces naturais da diplomacia climática são frágeis e que a tectônica de poder exige respostas coletivas e coordenadas.
Como analista, observo que iniciativas desse tipo não se limitam ao gesto performático; elas redesenham fronteiras invisíveis entre ciência, educação e cultura. Ao colocar um instrumento efêmero no centro do palco, Sollima e seus colaboradores convocam uma audiência plural — gestores, estudantes, pesquisadores e cidadãos — para uma audição crítica do presente e para a tomada de decisões futuras.
Em suma, a performance de Giovanni Sollima com o violoncelo de gelo é uma nota alta na partitura da diplomacia climática: bela, inquietante e necessária.






















