Por Marco Severini — A recente reaparição do vírus Nipah no Bengala Ocidental, na Índia, reacende preocupações na Ásia e ativa protocolos de vigilância em países vizinhos. Embora o foco atual pareça contido, a combinação entre a alta letalidade do agente e a memória ainda recente da pandemia empurra autoridades — de Tailândia a Nepal — a reforçarem controles nos aeroportos e fronteiras, um movimento defensivo no tabuleiro da saúde pública.
O Ministério da Saúde da Índia reportou dois casos confirmados e informou que foi adotado um “contencimento tempestivo”: testes laboratoriais imediatos, vigilância ampliada e investigação de campo para remontar a cadeia de contatos. Foram monitoradas 196 pessoas que tiveram contato direto com os casos confirmados — todas, até o momento, com resultados negativos.
O que é o vírus Nipah?
Identificado pela primeira vez em 1998, na Malásia, o Nipah é uma zoonose transmitida principalmente por morcegos frugívoros e, em surtos anteriores, por porcos. A Organização Mundial da Saúde o classifica entre as dez doenças prioritárias por seu potencial epidêmico, ao lado de COVID-19 e Zika. As razões são claras: mortalidade elevada — estimada entre 40% e 75% — ausência de vacina e de terapias específicas, e um espectro clínico que vai da infecção sem sintomas até encefalite fatal e insuficiência respiratória aguda.
Como se transmite?
A transmissão do Nipah ocorre por vias diversas, o que complica o controle em áreas rurais. Além do contato direto com animais infectados, o consumo de alimentos contaminados — notadamente suco de palma-da-dátil em que houve contaminação por saliva ou urina de morcego — é uma via reconhecida. A transmissão entre humanos também é documentada, especialmente em contextos familiares e entre profissionais de saúde que assistem pacientes sem proteção adequada.
Quadro clínico e janela temporal
O período de incubação usualmente varia de 4 a 14 dias, embora relatos excepcionais apontem para prazos maiores, até cerca de 45 dias. Na fase inicial, os sintomas podem confundir-se com uma gripe comum, o que dificulta o diagnóstico precoce em regiões tropicais com doenças endêmicas sobrepostas. Nos casos graves, o vírus ataca o sistema nervoso central, explicando o alto índice de letalidade.
Por ora, as medidas indianas de contenção e os controles em terminais aéreos vizinhos parecem ter reduzido o risco de disseminação em larga escala. Ainda assim, este episódio é um lembrete de que os alicerces da diplomacia sanitária e a tessitura da cooperação regional são fragéis; é preciso vigiar e reforçar vigilância e capacidade hospitalar — um movimento estratégico e preventivo no grande tabuleiro que define a segurança coletiva.






















