Abu Dhabi — Em meio ao recrudescimento das tensões entre Washington e Teerã, com uma força liderada pelo porta‑aviões Abraham Lincoln apontada como “pronta a intervir”, o Presidente da República italiana fez um apelo claro e concreto: é preciso restituir paz e estabilidade no mundo e reencontrar o valor do diálogo inter‑religioso como via para as relações internacionais.
Este foi o tom da primeira jornada da visita de Estado que Sergio Mattarella realiza nos Emirados Árabes Unidos, sua segunda missão oficial ao país do Golfo desde 2022. A disposição ao entendimento foi plenamente compartilhada pelo presidente emiratino, o xeque Bin Zayed Al Nahyan, numa série de conversas realizadas no complexo residencial do Qasr Al Shati, no coração de Abu Dhabi.
Cerimônia militar, troca de cumprimentos e um encontro reservado: Mattarella, acompanhado pelo vice‑ministro dos Negócios Estrangeiros Edmondo Cirielli e por uma delegação restrita, declarou que a visita representa um retorno “particularmente gradito” a um “país amigo” — e, sobretudo, a restituição simbólica da recepção que o próprio Bin Zayed recebeu em Roma em fevereiro do ano passado, visita que, segundo o Presidente italiano, deixou “sinais concretos” na cooperação bilateral.
No núcleo do diálogo entre os dois chefes de Estado esteve a preocupação compartilhada com os numerosos focos de instabilidade presentes no cenário internacional, nomeadamente os cenários de Gaza e Ucrânia, e a escalada de tensão no Oriente Médio provocada pelos atritos entre Irã, Estados Unidos e Israel. Ambos sublinharam a “urgente necessidade” de pôr fim aos conflitos em curso e de contrapor qualquer ação que tenda a manter elevada a inquietação regional.
Mattarella evocou ainda o papel dos Emirados como um “ponto de referência” na vida internacional, destacando o caráter extraordinário de sua abertura ao diálogo entre religiões — uma abertura que o Presidente definiu como algo “bem mais do que tolerância ou convivência”: é um contributo ativo para a construção de um mundo melhor. Essa reflexão surgiu após visitas institucionais ao Museu Nacional Zayed e à Casa da Família Abraâmica de Abu Dhabi, um símbolo da convivência pacífica entre as três grandes fés monoteístas inaugurado em 2023 e inspirado no Documento sobre a Fraternidade Humana, assinado pelo Papa Francisco e pelo Grande Imame de Al‑Azhar.
No contexto diplomático atual, marcado por fragilidades e por decisões cujo peso pode alterar alicerces inteiros, as palavras dos dois presidentes soaram como um chamado à construção de pontes em vez de muralhas. O encontro em Abu Dhabi reforça a ideia de que a diplomacia e a mediação política permanecem ferramentas essenciais para derrubar barreiras e proteger a vida cotidiana das pessoas — incluindo imigrantes e comunidades ítalo‑descendentes que transitam entre Roma e os Emirados.
Ao fim da sessão, a concordância entre Roma e Abu Dhabi deixou claro um objetivo prático: manter abertas as vias do diálogo e da mediação, porque o peso da caneta e das decisões tomadas nas capitais deve servir para erguer alicerces de segurança, não para abalar as vidas nas margens desses conflitos.






















