Por Marco Severini — Quando as águas do rio Limpopo transbordam, o mapa da segurança torna-se um tabuleiro onde peças imprevisíveis reaparecem. No sul do Moçambique, as intensas chuvas e as cheias que varrem a região não trouxeram apenas casas alagadas e pontes destruídas: trouxeram também crocodilos às ruas. Autoridades locais confirmaram que o aumento do nível dos rios permitiu a incursão desses predadores em áreas urbanas, contribuindo para pelo menos três mortes registradas no país.
Na cidade de Xai-Xai, capital da província de Gaza e uma das mais afetadas, o apelo oficial é claro: evacuar para terrenos mais altos. Paola Emerson, representante do Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários em Moçambique, alertou que o nível dos rios está alcançando zonas densamente povoadas e possibilitando que os crocodilos alcancem áreas agora submersas. Em Moamba, na província de Maputo, há relatos de um homem que foi arrastado por um crocodilo, incidente atribuído ao deslocamento de fauna provocado pelas cheias e, segundo autoridades locais, pelo fluxo de água proveniente do Kruger National Park, na África do Sul.
O quadro humano é grave: nas últimas semanas, as chuvas torrenciais que atingiram partes do sul da África — incluindo Moçambique, África do Sul e Zimbábue — deixaram um rastro de destruição. Mais de 100 pessoas perderam a vida na região; somente em Moçambique as autoridades contabilizam 13 óbitos relacionados às inundações, sendo três causados por ataques de crocodilos. A crise ultrapassa o risco imediato das águas e da fauna: o deslocamento populacional e a destruição de infraestruturas essenciais configuram uma crise humanitária em ampliação.
Organizações humanitárias, como o Programa Alimentar Mundial e o UNICEF, estimam que mais de 700.000 pessoas foram afetadas, mais da metade crianças, com vastas áreas agrícolas devastadas. A Organização Mundial da Saúde reportou interrupções severas nos serviços de saúde nas províncias de Gaza e Maputo, com a destruição de pelo menos 44 unidades de saúde, deixando dezenas de milhares sem acesso a cuidados médicos básicos.
Na lógica de um tabuleiro diplomático, movimentos como o esvaziamento controlado de barragens — adotado para evitar colapsos estruturais — funcionam como jogadas defensivas que, contudo, redistribuem riscos rio abaixo. A conectividade hidrológica entre bacias e parques nacionais transformou trechos originalmente protegidos em vetores de perigo humano: rios que antes delineavam fronteiras naturais tornaram-se corredores que ligam ecossistemas e áreas urbanas.
Do ponto de vista operativo, a resposta exige três frentes articuladas: operações de busca e resgate e realojamento imediato; proteção da cadeia de serviços essencial (saúde, água, saneamento); e uma avaliação rápida da segurança ambiental para mitigar riscos de fauna. No médio prazo, a estabilidade regional dependerá de uma arquitetura mais resiliente de gestão de recursos hídricos e de cooperação transfronteiriça entre autoridades de Moçambique e da África do Sul — um redesenho tácito de responsabilidades no teatro das águas.
Enquanto a resposta humanitária se organiza, a presença de crocodilos em áreas urbanas permanece como um lembrete brutal de que a mudança de um único elemento — chuva intensa, abertura de comportas, deslocamento de espécies — pode alterar a geografia do risco. É uma lição de Realpolitik ambiental: os alicerces frágeis da diplomacia e da gestão pública são testados quando a natureza reposiciona suas peças no tabuleiro.
As autoridades locais apelam à população para evitar áreas alagadas e reportar avistamentos de fauna. A coordenação internacional e a ajuda humanitária serão decisivas para mitigar o impacto imediato e iniciar a reconstrução de um território onde a segurança pública e a convivência com o ambiente volátil terão de ser repensadas.






















