Em um episódio que revela o roteiro oculto da nossa sociedade, a radialista e apresentadora Fabiana Sera levou ao programa La volta buona, apresentado por Caterina Balivo, um relato que espelha uma violência cotidiana: o bodyshaming. A busca por um simples casaco na taglia 48 transformou-se em um ataque que reativou traumas antigos.
Fabiana contou que entrou em contato pelo Instagram com um site de roupas ao ver que os tamanhos pareciam chegar apenas até a 44, enquanto ela procurava expressamente a taglia 48. Após trocarem algumas mensagens, recebeu um áudio com tom rude: “Signora se lei porta la taglia 48 e le piace mangiare non è colpa nostra” — frase que, traduzida na sua experiência, soou como uma sentença de culpa sobre o corpo e os hábitos pessoais.
O áudio foi mais do que um episódio isolado: serviu como gatilho para memórias de uma história mais longa. Fabiana, que tem 47 anos e descreveu ter sempre tido “os ombros largos”, revelou que é sobrevivente de bulimia e que trabalhou intensamente sua saúde mental. “Perdi 27 quilos em 10 meses”, disse, referindo-se a um processo acelerado que também envolveu uma operação em abril devido a um problema na tiroide. Hoje, mesmo diante da transformação física, ela ainda enfrenta o espelho da memória: “Não me reconheço mais no meu corpo, e estou fazendo terapia”.
O relato de Fabiana ilumina um ponto estrutural: o ataque ao corpo alheio não é apenas uma ofensa estética; é uma intervenção sobre a subjetividade, uma tentativa de reescrever a identidade do outro. Ao classificar o comentário como violência psicológica e bodyshaming, ela não apenas nomeia a agressão, mas também a coloca no campo jurídico. Fabiana não registrou uma queixa criminal, mas adotou uma medida preventiva: enviou uma diffida — um ato extrajudicial que sinaliza intenção de proteção e resposta legal.
Enquanto fala com a calma de quem teve que reconstruir um roteiro íntimo interrompido, Fabiana sublinha algo que nos interessa como observadores culturais: a humilhação sobre o corpo não cai do céu; ela é encenada por instituições informais — lojas, redes sociais, atendentes — que reproduzem normas estéticas e morais. O episódio da taglia 48 é, portanto, uma pequena cena que reflete um eco cultural maior, um espelho do nosso tempo onde o corpo se torna palco de julgamentos e memórias.
Há também uma camada de esperança e resistência. Ao processar o episódio publicamente no programa e buscar proteção legal, Fabiana desloca a narrativa do silêncio para a contestação, transformando uma experiência de violência em afirmação de direitos e cuidado com a própria história. Como analista cultural, vejo esse gesto como um reframe: não apenas denunciar, mas reinterpretar a experiência para além do cinismo imediato.
O caso de Fabiana Sera nos desafia a perguntar por que ainda toleramos comentários que fragilizam corpos e mentes. Em tempos em que a indústria da imagem ditamina normas, é preciso reconhecer a dimensão política de cada palavra dirigida ao corpo do outro — e responder, quando necessário, com medidas que protejam a integridade psicológica e a dignidade humana.
















