Sanremo 2026 recebe de volta uma voz que já habitou o palco do Ariston com diferentes peles artísticas: Serena Brancale retorna pela terceira vez com ‘Qui con me’, uma canção nascida da ausência e moldada ao longo de seis anos. Em uma conferência de imprensa em Milão, a artista descreveu a música como uma carta dirigida à mãe, falecida há seis anos, e afirmou que este é “o ano certo” para finalmente dizê-la em voz alta.
Distante da leveza inconsciente de ‘Galleggiare’, de onze anos atrás, e também da celebração festosa de sua participação no ano passado, Brancale chega a Sanremo com uma clareza nova: quer que a voz seja protagonista. “Sinto a consciência de querer finalmente cantar — o vestido fica em segundo plano e o que importa é a voz”, explicou. Essa escolha traduz-se em uma estética de palco despida: performática, porém contida. “Será muito escarna. Tenho que cantar. Ponto. Vou ficar imóvel com o pedestal do microfone, sem nem tocá-lo. Acho que não mexer-se é muito emocionante”, disse a cantora, ciente das emoções que a peça pode abrir.
A composição é fruto de uma gestação longa e necessária. “Levei seis anos para encontrar as palavras certas”, contou. Não se trata para ela de um hino à saudade, mas de “uma cura para a nostalgia”: uma forma serena de nomear a perda, ao invés de se deixar consumir por ela. A ferida, diz, continua presente — “é algo que me fere” — mas foi metabolizada e transformada em música.
O encontro entre memória e cena também terá pele familiar: a irmã Nicole Brancale foi convidada para reger a orquestra. “Com esse brano, sobretudo, não podia faltar. Não conseguiria olhar para alguém que não faça parte dessa história”, afirma Serena. A presença da família no espetáculo atua como um espelho do passado que se projeta no presente — as marcas maternas vistas no gesto cotidiano, nas mãos, no sorriso, até na semelhança vocal que a própria cantora reconhece.
Apesar da escolha intimista, Brancale não renega sua face mais festiva, presente em sucessos como ‘Anima e Core’ e ‘Serenata’. “Adoro essas músicas, fazem parte de mim”, diz, lembrando que a diversidade de registros é parte do seu repertório emocional e artístico. Sobre o caminho que o concurso pode abrir, a artista foi direta quanto ao Eurovision: “Por ora não penso nisso”.
Ao olhar para esta volta ao Festival como um roteiro de transformação, percebe-se o que há de simbólico: a música popular como um espelho do tempo, onde a perda pessoal encontra ressonância pública. A escolha por uma performance essencial e quase escultórica — voz e microfone — configura um reframe da realidade do espetáculo, um gesto que privilegia a franqueza sobre o ornamento. Em tempos em que o show frequentemente vira espetáculo de superfícies, a decisão de Serena é um pequeno ato de resistência estética e afetiva.
Sanremo será, assim, o cenário onde uma história íntima se faz canção coletiva. E, enquanto muitos buscam na música a celebração, Brancale opta por trazer ao palco a honestidade do luto convertido em trabalho artístico — um roteiro oculto que, justamente por ser pessoal, tem o poder de tocar.






















