Sal Buscema, uma figura central no cânone visual da Marvel, faleceu em sua casa no condado de Fairfax, Virgínia, aos 89 anos, segundo comunicado da família nas redes sociais. A notícia chega como um ponto final em uma carreira que ajudou a definir a iconografia dos super-heróis americanos: de Spider-Man a Capitão América, do Incrível Hulk aos Defensores, seu traço deixou um rastro indelével.
Nascido em 26 de janeiro de 1936 no bairro do Brooklyn, em Nova York, em uma família de raízes sicilianas, Sal cresceu cercado pela arte. Era o irmão mais novo do também lendário John Buscema (1927-2002). O pai, barbeiro natural de Pozzallo (província de Ragusa), e o ambiente familiar incentivaram o caminho criativo que o levaria à Marvel.
O início profissional de Sal Buscema remonta à metade da década de 1960, trabalhando como arte-finalista (inchiostratore) sobre as lápis do irmão. Seu primeiro crédito significativo aparece em Silver Surfer #4 (1968), onde já se notava sua capacidade de articular ritmo narrativo e eficiência produtiva — atributo que o tornaria imprescindível para a editora. Sua confiabilidade diante de prazos apertados e a enorme produção o colocaram entre os artistas mais prolíficos da era.
Esteticamente, o traço de Buscema trazia tons mais escuros e linhas angulosas, um reframe que antecipava atmosferas que seriam comuns nos quadrinhos das décadas seguintes. A partir do fim dos anos 1970 ele passou a arte-finalizar regularmente seus próprios desenhos e, nos anos 1990, alternou entre inchar suas próprias páginas e entintar artes de colegas, inclusive retornando a colaborações com seu irmão em títulos como o dos Fantásticos Quatro em roteiros de Steve Englehart.
Entre as colaborações mais lembradas está a parceria com Steve Englehart em Capitão América, que culminou na polêmica e memorável saga ‘Secret Empire’ — enredo em que a presidência dos Estados Unidos é implicada com uma organização criminosa secreta, culminando em uma cena dramática que empurra Steve Rogers a assumir temporariamente a identidade de Nomad. Na mesma década, trabalhou nos Defensores ao lado de Len Wein e Steve Gerber, desenhando confrontos marcantes entre Hulk e Thor.
De 1975 em diante, Buscema se dedicou intensamente ao Incrível Hulk, título que amava e desenhou por mais de uma década, ajudando a consolidar o personagem como um dos pilares da Marvel. Também é creditado pela criação do Squadron Sinister, que serviu de inspiração ao histórico Squadron Supreme — outro exemplo do modo como seus desenhos reverberaram além das capas e das páginas, infiltrando-se no imaginário coletivo dos super-heróis.
Como observadora desse cenário cultural, não posso deixar de ressaltar que a obra de Sal Buscema funciona como um espelho do nosso tempo: seus traços foram o roteiro oculto que ajudou a narrar ansiedades, mudanças políticas e iconografias de poder de gerações. Em um mundo em que heróis frequentemente representam conceitos sociais e memórias coletivas, Buscema ofereceu imagens que permanecerão como parte da semiótica do gênero.
Seu falecimento é sentido não só como a perda de um artista eficiente e prolífico, mas como o silêncio de uma câmara que por décadas projetou atos heroicos que moldaram a cultura pop global. A família confirmou que mais detalhes sobre despedidas e homenagens serão divulgados pelas redes sociais oficiais nos próximos dias.






















