Por Giulliano Martini
O crescimento global da cirurgia estética, impulsionado por campanhas nas redes sociais e publicidade agressiva, está trazendo à tona uma face perigosa do setor: profissionais sem qualificação adequada, clínicas irregulares e pacientes atraídos pelo preço baixo, com resultados às vezes graves ou fatais. O diagnóstico é de Roy De Vita, chefe do serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva do Hospital Regina Elena, em Roma, e presidente da Icopras (Italian College of Plastic Reconstructive and Aesthetic Surgery), em entrevista ao Adnkronos.
A investigação do Washington Post sobre a China, citada por De Vita, descreve um mercado que cresceu rápido demais e sem regras — com procedimentos múltiplos no mesmo dia, cursos-relâmpago e mortes associadas. Segundo o cirurgião, essas dinâmicas não são exclusivas da China; reflexos semelhantes já se observam na Itália e em outros países europeus.
“A cirurgia estética se transformou num far‑west”, afirma De Vita. “A deregulamentação, o marketing agressivo e a publicidade sanitária nas redes sociais são o nó central a ser enfrentado. Antes de tudo, trata‑se da proteção dos pacientes”.
Na entrevista, o chefe de cirurgia plástica insiste numa distinção legal e técnica: a única especialização reconhecida e específica é a de cirurgia plástica, reconstrutiva e estética. Ainda assim, lembra, a lei italiana permite a médicos diplomados em Medicina e Cirurgia atuarem em áreas cirúrgicas sem a exigência formal da especialização — uma brecha que, segundo ele, alimenta equívocos públicos e riscos clínicos.
“Ninguém se arrisca a se autoatribuir cardiologista, mas muitos subestimam a complexidade da cirurgia plástica”, diz De Vita. “Parte do problema vem de dentro da categoria: médicos que fazem publicidade inadequada e técnicas inventadas”. Ele descreve a emergência de perfis nas plataformas digitais — “beauty experts”, influenciadores e autoproclamados especialistas — que frequentemente realizam procedimentos reservados a cirurgiões formados. “O paciente médio não tem como distinguir: fica na promessa do resultado e no valor. Depois vêm os casos de complicações — às vezes operações realizadas no segundo andar de um prédio, com mortes por manejo inadequado”.
Para o presidente da Icopras, o vácuo regulatório é o principal ponto a ser preenchido. De Vita defende intervenção governamental clara e imediata: normas sobre quem pode realizar procedimentos, regras sobre publicidade médica nas redes sociais, certificação de estruturas e formação contínua obrigatória. Sem isso, alerta, a dinâmica atual seguirá expondo pacientes ao risco.
A proposta, segundo o cirurgião, passa pelo cruzamento de instrumentos: legislação específica, fiscalização mais eficaz e campanhas de informação pública para capacitar o cidadão a reconhecer profissionais habilitados. “É preciso devolver ao paciente as ferramentas para distinguir competência e mercantilização”, resume.
Apuração in loco e cruzamento de fontes mostram que o fenômeno tem repercussões práticas: do aumento de intervenções estéticas em clínicas não especializadas ao crescimento de oferta online com preços competitivos que mascaram a ausência de garantias técnicas. A realidade traduzida pelos números e pelos relatos clínicos aponta para uma necessidade urgente de regras — não para restringir a prática legítima, mas para proteger vidas.
Em linhas gerais, as medidas recomendadas por De Vita e por sociedades científicas europeias incluem registro obrigatório de profissionais e clínicas, proibição de publicidade enganosa, limites para cursos práticos de curta duração sem supervisão e campanhas públicas de esclarecimento. O objetivo expresso é claro: reduzir o risco para o paciente e restaurar critérios técnicos na escolha de quem opera.
Enquanto governos e órgãos reguladores não avançam com normas específicas, conclui o cirurgião, permanece um mercado em expansão que mistura ciência, comércio e espetacularização — um ambiente no qual a segurança do paciente corre risco.






















