Por Giulliano Martini — Apuração in loco, cruzamento de fontes e relato direto dos fatos. Um novo surto do vírus Nipah na Índia reabre o alerta internacional sobre agentes zoonóticos com potencial alto de letalidade, mas especialistas do Spallanzani indicam que o perigo de casos importados para a Itália é remoto.
O vírus Nipah não é uma emergência inédita: os primeiros registros humanos ocorreram entre 1998 e 1999 na Malásia e em Singapura, associados a criadouros de suínos expostos a fluidos respiratórios de animais contaminados. Desde 2001, epidemias repetidas foram documentadas em Bangladesh e surtos esporádicos vêm sendo relatados em diferentes regiões da Índia.
“Inicialmente presente em ambiente animal”, explica o infectologista Emanuele Nicastri, diretor da UOC de Doenças Infecciosas de Alta Intensidade de Cuidado do INMI Spallanzani, em Roma. Entre os reservatórios naturais estão as raposas-voadoras e os morcegos-frugívoros. O agente já foi identificado em uma gama ampla de mamíferos — porcos, cavalos, gatos e cães — que podem ser assintomáticos ou apresentar doença leve a moderada. “Os seres humanos, ao contrário, podem desenvolver doença com letalidade de até 75%”, sublinha Nicastri.
O especialista descreve um padrão recorrente: o vírus emerge, de modo pouco previsível e de forma esporádica, a partir da nicho ecológico animal e provoca surtos locais. “Frequentemente vemos a ponta do iceberg quando os primeiros casos humanos procuram hospitais e ali a transmissão não é contida adequadamente”, afirma. A dinâmica de propagação em ambientes assistenciais decorre, na maioria das vezes, da falta inicial de consciência do risco por parte dos profissionais e da consequente falha na adoção imediata das medidas de proteção individual.
Sobre a possibilidade de o surto na Índia representar um risco real de importação para a Itália, Nicastri é categórico: “Penso que não. O turista típico não frequenta as áreas mais pobres onde existe contato direto com fezes ou secreções de animais infectados. O risco de importação é puramente virtual”.
O alerta chega no contexto do sexto aniversário do internamento dos primeiros dois cidadãos chineses de Wuhan no Spallanzani, episódio que marcou o início da pandemia de Covid-19 em território italiano. Ainda assim, Nicastri destaca a diferença inviolável entre os cenários: “Não estamos diante de um novo Covid. Trata-se de uma patologia altamente contagiosa que exige isolamento e é, em geral, autolimitante, mas com alta gravidade clínica”.
Clinicamente, a infecção por Nipah costuma começar com sintomas gripais — febre, náusea, dor de garganta, mialgia e cefaleia — evoluindo, em casos graves, para uma pneumonia atípica com insuficiência respiratória e tosse, ou, mais comumente, para encefalite aguda de evolução rápida. O quadro hospitalar dos primeiros pacientes é crítico: enquanto a consciência do risco não se estabelece entre os operadores, aumenta a probabilidade de transmissão intrahospitalar. “Uma vez que a equipe reconhece a situação e adota as medidas de proteção, o surto tende a se extinguir com a evolução clínica dos pacientes — cura ou óbito”, conclui o médico.
Em termos de vigilância, a recomendação técnica é a manutenção de protocolos de identificação rápida, isolamento de casos suspeitos, uso estrito de equipamentos de proteção individual e investigação do contato com animais silvestres ou suas secreções em áreas afetadas. Do ponto de vista prático e imediato, a população italiana não enfrenta, neste momento, um risco de contágio direto a partir do surto indiano, mas o episódio reforça a necessidade permanente de vigilância epidemiológica e preparação hospitalar para agentes zoonóticos de alta letalidade.






















