Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma conversa que mistura ciência e cuidado humano, a hematologista Elena Rossi, professora associada de Hematologia na Universidade Cattolica del Sacro Cuore e responsável pelo Day Hospital de Hematologia do Policlinico Gemelli em Roma, lembra que a anemia é um traço definidor da mielofibrose. “O medula trabalha mal e produz poucos glóbulos vermelhos”, explica Rossi, trazendo à tona a imagem do organismo que respira com menos força quando as raízes do sangue estão fragilizadas.
Na prática clínica, os números traduzem essa fragilidade: níveis de hemoglobina abaixo de 8 g/dL costumam demandar transfusões para que o paciente mantenha uma respiração adequada e uma rotina minimamente regular. Mas há espaço para intervir antes que a paisagem se deteriore.
Rossi destaca que, ao identificar uma queda nos níveis de hemoglobina já quando estão em torno de 10 g/dL, é possível — e desejável — iniciar uma terapia farmacológica que evite a dependência de transfusões. O fármaco que vem sendo apontado com relevância nesse contexto é o momelotinib, cuja finalidade primária é justamente corrigir o componente anêmico da mielofibrose.
“Intervir precocemente permite tratar antes da necessidade de transfusão e evita o impacto negativo de hemoglobinas extremamente baixas”, afirma a especialista. Em palavras que reconciliam ciência e qualidade de vida: ao elevar os níveis de hemoglobina, não só se devolve mais energia e vitalidade ao paciente — aproximando seu cotidiano daquele de quem não tem a doença — como também se melhora o trajeto clínico. Dados clínicos indicam que melhores níveis de hemoglobina associam-se a maior sobrevida, maior capacidade de resposta às terapias e decisões terapêuticas mais serenas, em vez de sempre correr atrás da progressão da doença.
É preciso lembrar, segundo Rossi, que a mielofibrose é a mais rara entre as três principais doenças mieloproliferativas — ao lado de policitemia vera e trombocitemia essencial —, mas também é a que impõe maior peso na vida diária dos pacientes. Por isso, a conscientização e o encaminhamento ao especialista são atitudes que servem como uma forma de prevenção ativa, quase como irrigar um campo antes da seca.
Quando a anemia surge sem sinais evidentes de deficiências nutricionais ou perdas sanguíneas, Rossi aconselha a investigação específica com o hematologista: exame físico focado, avaliação do aumento do volume esplênico e outros parâmetros que possam apontar para uma insuficiência medular subjacente. O objetivo é não apenas diagnosticar, mas estruturar um cuidado que acompanhe o paciente com sensibilidade e técnica.
Com a chegada de opções como o momelotinib, a prática clínica ganha ferramentas que permitem uma abordagem mais precoce e personalizada — um pouco como semear soluções quando o solo ainda aceita o cultivo. Para o paciente, isso representa menos transfusões, mais autonomia e um horizonte clínico mais promissor.
Em suma, a lição que fica é dupla: escutar os sinais do corpo com atenção e não subestimar a vantagem de agir cedo. Na encruzilhada entre diagnóstico e tratamento, a intervenção oportuna floresce em melhor qualidade de vida e prognóstico.






















