Por Marco Severini — Em um movimento que reverbera no tabuleiro diplomático, o primeiro‑ministro da Eslováquia, Robert Fico, teria confidenciado a outros chefes de Estado da União Europeia preocupação com o estado psicológico do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após encontro mantido em 17 de janeiro na propriedade de Mar‑a‑Lago, na Flórida. A informação é atribuída ao site Politico, que cita cinco diplomatas europeus não identificados.
Segundo a reportagem, embora a posição pública de Fico costume ser abertamente favorável a Trump, em conversas reservadas ele teria descrito o nível de alerta como de preocupação pela “saúde mental” do presidente norte‑americano, chegando a empregar o termo “perigoso” para qualificar a situação. Trata‑se, em essência, de uma observação que, se verificada, configura um deslocamento sensível do discurso público para os corredores discretos da diplomacia.
A conversa teria ocorrido na quinta‑feira em Bruxelas, no âmbito de um encontro informal à margem da cimeira extraordinária sobre a Groenlândia. Politico afirma que os líderes presentes transmitiram o conteúdo a diplomatas que não assistiram diretamente à conversa, os quais, por sua vez, relataram o episódio ao veículo.
Fico, entretanto, reagiu prontamente às alegações com um longo comunicado divulgado em X, no qual nega a narrativa apresentada por Politico. Em cinco pontos numerados, o primeiro‑ministro procura reconstruir os termos de sua visita e rebater o que chama de tentativa de “destruir” relações construtivas.
Na tradução e síntese das posições anunciadas por Fico:
- Ele afirma que não falou no encontro informal em Bruxelas, assim como nenhum outro primeiro‑ministro (citando o grupo V4 — Polônia, Hungria, República Tcheca e Eslováquia) e que criticou a preparação e a convocação do vertice;
- Aponta ter havido tentativas de atrapalhar sua viagem aos Estados Unidos, à semelhança do episódio de sua visita à Rússia, com impedimentos de sobrevoo por parte de alguns Estados‑membros da UE;
- Diz concordar com muitas das estratégias do presidente dos EUA, embora discorde de outras, e que esperava uma eventual suspensão de sua visita em função de declarações duras sobre a Venezuela — suspensão que, segundo ele, não ocorreu;
- Acusa Politico de buscar minar as relações da República Eslovaca com parceiros globais e de afetar interesses nacionais, incluindo projetos de diversificação do programa nuclear pacífico e cooperação com os Estados Unidos;
- Por fim, afirma que críticas públicas não exigem “megafones” e cita sua proposta a respeito da substituição de K. Kallas como exemplo de posicionamento direto.
O episódio, mesmo que circunscrito a declarações contraditórias, desenha uma linha de fratura nas práticas de comunicação entre aliados: de um lado, o rumor replicado por canais de imprensa internacional que apoia a vigilância política; de outro, a réplica formal de um líder nacional que busca preservar a estabilidade institucional. Em termos de geopolítica, trata‑se de um movimento que pode reordenar percepções — uma jogada na tectônica de poder que molda os alicerces frágeis da diplomacia transatlântica.
Enquanto investigadores de imagem e relações públicas trocam lances, os Estados‑membros e Washington observam com cautela. A acusação de que um líder europeu tenha expressado intranquilidade sobre a saúde mental do presidente dos EUA introduz uma variável sensível no relacionamento bilateral e no equilíbrio mais amplo entre UE e Casa Branca — uma variável que, no tabuleiro estratégico, exige tanto prudência quanto rigor analítico.
Continuaremos a acompanhar desdobramentos e declarações oficiais, avaliando o impacto desse atrito verbal nas rotas diplomáticas e nas alianças que sustentam a ordem internacional contemporânea.






















