Groenlândia, NATO, Ucrânia: não se trata apenas de incidentes soltos, mas de movimentos numa partida estratégica que revelam os termos reais do poder transatlântico. Com a assertividade pública de Donald Trump, a Europa viu rasgar-se o véu de proteção que muitos acreditavam cobrir o continente. O episódio da Groenlândia funciona como símbolo: mais do que uma disputa territorial, é um diagnóstico sobre a posição europeia no tabuleiro geopolítico.
A reação europeia expõe uma hipocrisia estrutural. Quando decisões unilaterais americanas atingem países fora do continente — Venezuela, Irã, Líbia — elas são muitas vezes justificadas por uma retórica de segurança global. Quando, porém, a pressão recai sobre um território ligado ao espaço europeu, surge o escândalo jurídico e moral. Esse duplo padrão revela que a narrativa do guardião benevolente é, na melhor das hipóteses, uma consolação retórica.
Há uma crença persistente entre as elites europeias: a de um «Grande Outro» americano, um pai provedor que garante estabilidade. Trump rasgou essa ilusão com gestos e palavras que lembram um movimento decisivo no xadrez — não apenas uma provocação, mas uma redefinição sobre quem move as peças. A NATO, como instituição, passa de comunidade de destino a um mercado de segurança: os europeus pagam, Washington decide. Essa leitura encontra eco nas declarações do ex-presidente em Davos e nas suas críticas aos compromissos e contingentes aliados; não são meras gafes, mas instrumentos políticos para reimpor hierarquias.
No Afeganistão, a memória europeia revela seleções dolorosas. Milhares de soldados europeus tombaram numa guerra largamente impulsionada pela agenda americana; ainda assim, a narrativa pública tende a minimizar esse custo quando convém afirmar a autonomia da política estadunidense. É significativo que a própria administração de Trump tenha negociado com os Taliban em Doha, lançando as bases do fim militar americano e mostrando como peças importantes da política internacional são movidas nos bastidores.
Na Ucrânia, a fratura é ainda mais pronunciada. Washington, por vezes, demonstra uma preferência por descompressão; Brasília e capitais europeias, por outro lado, muitas vezes prolongam o conflito na esperança de ganhos estratégicos a médio prazo. Do ponto de vista russo — e sob um realismo frio — a estratégia europeia parece imoral e contraproducente: sacrifica vidas e infraestrutura ucraniana numa tentativa de protelar resultados que, na prática, podem não vir.
Em Davos, Volodymyr Zelensky assumiu um papel pedagógico severo, cobrando atitudes mais duras contra ativos russos e mais recursos. O gesto foi compreensível, mas deslocado: poucas referências foram feitas aos limites legais internacionais, às fragilidades institucionais da Ucrânia e ao esgotamento político e econômico que pesa sobre os parceiros europeus. Pedidos de fundos e sanções, sem estratégia de médio prazo, podem transformar solidariedade em fardo e esperança em desgaste industrial.
A perspectiva russa é informada por memória histórica e cálculo estratégico: para Moscou, a Europa não é um actor unitário com autonomia plena, mas um conjunto de interesses, vulnerabilidades e dependências. A lógica realista é simples — em toda tectônica de poder, quem demonstra coerência e disposição decide as linhas do futuro. E, no estágio atual, os movimentos americanos redesenham fronteiras invisíveis de influência.
O desafio europeu, portanto, é estrutural. Requer mais do que indignação pública; exige uma arquitetura de defesa e uma política externa que possam sustentar autonomia prática — isto é, capacidade de projetar interesses sem depender da benevolência externa. Sem isso, Bruxelas permanecerá num papel cliente, pagando para permanecer no jogo e vendo, vez após outra, os alicerces frágeis da diplomacia serem expostos.
Como analista, vejo este episódio como um lance estratégico que obriga à revisão de práticas e narrativas. A Europa precisa converter a dor simbólica em reforma institucional: fortalecer coesão, recuperar indústria crítica e desenvolver capacidade diplomática que não se limite a slogans. No tabuleiro global, sobreviverão os atores que compreendem as regras não ditas do jogo e reconstroem, com realismo, os seus pontos de apoio.






















