Por Chiara Lombardi — Em um roteiro que parece saído de um arquivo secreto de cinema, um capítulo desconhecido da vida artística de Charles Trenet ressurgiu após quase cem anos: o romance juvenil Les Rois fainéants, escrito pelo cantor e letrista francês aos 17 anos, foi publicado pela primeira vez na França pela editora Frémeaux et Associés.
A descoberta é obra do antiquário parisiense Hugues Amouret, que, ao catalogar os papéis pessoais do também parolier Louis Amade, encontrou uma pasta laranja contendo 203 folhas manuscritas de Trenet, conservadas como se guardassem a respiração do tempo. Na primeira página, referências a Guillaume Apollinaire e Anatole France revelam a matriz literária que orientava o jovem autor.
O romance, estruturado em 21 capítulos, revela uma fascinação precoce pela história de França — em particular pelo período merovíngio — e narra o destino dos soberanos francos posteriores a Dagoberto I. A ação transcorre por margens e florestas: dos bordos do Oise às matas do Mans, com viagens literárias que tocam Narbonne, Montauban, Toulouse e Carcassonne, até visões de uma Paris descrita como “cidade squisita, vivace e raffinée” — uma cidade que o próprio Trenet, curiosamente, ainda não conhecera verdadeiramente.
Entre cenas de corte histórico, surgem ecos inesperados do moderno: alusões ao jazz e ao nascente fox-trot aparecem como trilha sonora embrionária, criando um contraste entre o passado medieval e o pulso urbano emergente da virada do século XX. É como se o manuscrito funcionasse como um espelho do nosso tempo, onde a memória histórica e o refrão de novos ritmos dialogam em contraponto.
Trenet iniciou o projeto em Berlim, em 1929, enquanto estudava na Künstgewerbeschule, e o concluiu no verão de 1930 em Font-Romeu. Apesar do interesse inicial de editores parisienses, o texto jamais chegou às livrarias — provavelmente vítima de um descuido na gestão dos primeiros arquivos do artista por parte de Louis Amade, que manteve o manuscrito sem reconhecer, até então, sua importância.
Especialistas especulam que, se Les Rois fainéants tivesse sido publicado na época, a trajetória artística de Trenet poderia ter tomado um rumo diferente — talvez ele não tivesse se transformado no lendário “Fou chantant” da canção francesa. Ainda assim, o reaparecimento desta obra preenche um espaço inédito na biografia de um autor de quase mil canções, cuja poesia marcou o século XX musical francês.
Para nós que observamos a cultura como um cinema coletivo, a recuperação deste manuscrito é mais do que um achado: é um reframe da memória cultural. Revela como um jovem artista já trazia, no seu imaginário, tanto a reverência pelas raízes históricas quanto a curiosidade pelos ritmos novos — um roteiro oculto que ajudou a moldar sua voz futura.
Publicar hoje Les Rois fainéants é oferecer ao público um pequeno documento de gênese, um esboço onde a história, a música e a formação europeia se encontram. É, enfim, completar um mosaico: uma peça até então perdida que ilumina o percurso de Charles Trenet, e que convida a ler sua obra não só como canção, mas como um verdadeiro espelho do seu tempo e da Europa em transformação.


















