Por Marco Severini — Em um movimento que exige leitura atenta do tabuleiro geopolítico, voltou a emergir a ameaça do vírus Nipah após dois casos confirmados no estado do Bengala Ocidental, na Índia. As autoridades indianas comunicaram que medidas de vigilância ampliada, testes laboratoriais e investigações de campo asseguraram um ‘contenimento tempestivo’ dos casos, e que 196 contatos foram rastreados com resultados negativos até o momento.
Do ponto de vista técnico-sanitário, o Nipah é um patógeno zoonótico transmitido por animais — sobretudo por suínos e por morcegos frugívoros — e também capaz de transmissão por alimentos contaminados ou por contato entre pessoas. A Organização Mundial da Saúde classifica o vírus entre as dez doenças prioritárias, em virtude da sua potencial capacidade epidêmica. Não existe vacina aprovada para o vírus Nipah e a letalidade reportada pela OMS varia entre 40% e 75%.
Historicamente, o Nipah foi identificado pela primeira vez em 1998 durante um surto que afetou suinicultores na Malásia e se estendeu a Singapura. Na Índia, o primeiro foco documentado ocorreu em 2001 no mesmo Bengala Ocidental; episódios posteriores, como o surto de 2018 no Kerala (pelo qual ao menos 17 pessoas morreram) e casos em 2023 no mesmo estado, lembram que a ameaça é recorrente.
Em reação à notificação indiana, países vizinhos e rotas de mobilidade estratégicas adotaram contramedidas: autoridades da Tailândia instituíram controles adicionais em três aeroportos para passageiros provenientes do Bengala Ocidental, enquanto o Nepal reforçou inspeções no aeroporto de Catmandu e nas passagens terrestres de fronteira. São movimentos previsíveis em uma arquitetura de segurança sanitária que age para mitigar riscos transfronteiriços.
Do ponto de vista clínico, a infecção por Nipah pode variar de assintomática a quadros de sintomas respiratórios agudos e encefalite fatal. O período de incubação oscila entre quatro e 14 dias. Nos surtos iniciais, a transmissão foi frequentemente associada ao contato direto com suínos doentes ou seus tecidos; em outros episódios, especialmente em Bangladesh e Índia, o consumo de frutos ou sucos contaminados por secreções de morcegos frugívoros foi identificado como fonte provável.
Analiticamente, este episódio exige dois tipos de leitura. Primeiro, a resposta sanitária imediata: rastreamento de contatos, isolamento oportuno e vigilância laboratorial são as peças centrais do contenimento. Segundo, a leitura estratégica: o reaparecimento do vírus Nipah expõe alicerces frágeis da diplomacia sanitária regional e realça a necessidade de coordenação entre estados no monitoramento de zoonoses. Em termos de diplomacia do tabuleiro, cada movimento de contenção nacional reverbera nos eixos de influência regionais e na gestão de fluxos humanos e comerciais.
Concluir que há pânico seria prematuro; ainda assim, a letalidade e a ausência de vacina impõem vigilância contínua. A estabilidade regional requer, como numa arquitetura clássica, sólidas fundações técnicas e cooperação entre laboratórios, centros de vigilância e governança transfronteiriça. O desafio é evitar que focos isolados redesenhem fronteiras invisíveis de medo e descoordenação.
Continuaremos acompanhando o desdobramento das investigações indianas e as medidas adotadas por países vizinhos, avaliando o risco real para o Brasil e a Europa à luz dos fluxos de viagem e do histórico epidemiológico da região.






















