Bruxelas – Em um discurso medido e estratégico na conferência anual da Agência Europeia de Defesa (EDA), realizada em Bruxelas no dia 28 de janeiro de 2026, a Alta Representante para a Política Externa e de Segurança, Kaja Kallas, apresentou o recém-negociado acordo comercial UE-Índia como um instrumento que pode transcender a economia e ser mobilizado em matéria de segurança internacional.
Na perspectiva delineada por Kallas, o pacto comercial não é apenas um contrato tarifário: pode funcionar como um primeiro movimento numa sequência diplomática destinada a alargar a cooperação estratégica entre Bruxelas e Nova Deli. “A parceria com a Índia poderia ser utilizada para a cooperação em matéria de segurança, como o apoio à Ucrânia”, afirmou a Alta Representante ao público da EDA, sinalizando um uso explícito do acordo para finalidades além do comércio.
Essa abordagem abre um capítulo de geopolítica que atua sobre um tabuleiro complexo. Pedir à Índia que se posicione — direta ou indiretamente — em favor de Kiev implica um alinhamento que, por sua natureza, contraria interesses da Rússia e seu presidente, Vladimir Putin. Kallas reconhece esse risco, mas argumenta que a iniciativa é necessária para recompor equilibrios de alianças num cenário internacional recalibrado pelo novo curso dos Estados Unidos.
Segundo a Alta Representante, “é claro que a Rússia permanecerá a principal ameaça nos próximos anos”. Em paralelo, ela reiterou que a China constitui uma ameaça de longo prazo, apontando que Pequim vem prestando auxílio à Rússia em sua campanha contra a Ucrânia — um argumento que insere a rivalidade sino-russa no centro da análise de segurança europeia.
O discurso também fez referência aos pontos de tensão regionais que informam a conjuntura diplomática asiática. No Mar do Sul da China, as ilhas Paracelso e Spratly permanecem focos de disputa entre Pequim, Taipei, Manila e Hanói. Mais relevante para a própria concepção de parceria com a Índia, Kallas destacou a dívida histórica e as fricções territoriais entre China e Índia: aproximadamente 120 mil quilômetros quadrados ainda em litígio ao longo de uma fronteira de cerca de 3.400 km.
A geografia do conflito é nítida: a China controla o Aksai Chin — reclamado pela Índia como parte do Caxemira — e a Índia administra o Arunachal Pradesh, reivindicado por Pequim como parte do Tibete autônomo. Nessa tessitura, qualquer tentativa de instrumentalizar o acordo UE-Índia para objetivos de defesa ou apoio à Ucrânia pode provocar reações em cadeia, desencadeadas por alianças regionais, reivindicações históricas e interesses econômicos.
Como analista, observo que a proposta de Kallas busca desenhar um novo eixo de influência onde o comércio serve de alicerce para cooperações de segurança — uma estratégia que lembra um movimento de abertura no xadrez estratégico: avançar um peão para obter espaço, mas sempre calculando as respostas adversárias. A proposta é audaciosa e pragmática, porém exige que Bruxelas contabilize com precisão os riscos diplomáticos e as contrapartidas que Nova Deli estará disposta a aceitar.
O desafio é grande: transformar um acordo econômico em mecanismo de estabilidade sem fragilizar os próprios fundamentos de uma relação bilateral que ainda depende de confiança mútua e de uma arquitetura de interesses compartilhados. Resta saber até que ponto a Índia aceitará esse redesenho de papéis no tabuleiro da ordem internacional.
Marco Severini — Espresso Italia






















