Morbo K estreia em prime time na Rai 1 nos dias 27 e 28 de janeiro de 2026, oferecendo ao público uma dramatização tensa e moralmente complexa de um episódio sombrio da história romana. Ambientada em Roma em setembro de 1943, a minissérie parte de um dos episódios mais perturbadores da ocupação nazista: a chantagem do comandante das SS, Kappler, que exige que a comunidade judaica pague cinquenta quilos de ouro para evitar a deportação.
No centro dessa narrativa está o diretor do hospital Fatebenefratelli, o médico conhecido como professor Prati. Interpretado com densidade e sobriedade por Vincenzo Ferrera, o personagem revela um tipo de coragem quieta e inventiva: para proteger famílias do ghetto, ele forja a existência de um patógeno letal, o tal “Morbo K”, e cria um alojamento especial dentro do hospital onde essas pessoas podem ser mantidas em segurança, à margem das listas de deportação.
Como observadora cultural, não vejo essa minissérie apenas como um exercício de memória histórica; é também um espelho do nosso tempo. A invenção do «Morbo K» é uma metáfora poderosa sobre a ética do engano em nome da proteção — o roteiro oculto da sociedade quando as instituições falham. A ficção retoma fatos e os refrata num cenário de transformação moral: médicos, auscultando não só feridas físicas, mas o tecido social em ruínas, tornam-se atores de resistência.
Vincenzo Ferrera traz ao professor Prati uma gravidade contida que lembra o tom dos melhores personagens de cinema europeu — aquele olhar que sugere um dilema interno, uma escolha que reverbera além da cena. A interpretação conecta o público contemporâneo ao passado sem diminuir o horror dos acontecimentos; pelo contrário, amplia a pergunta: até que ponto a mentira pode ser um ato de salvação?
Além da dramatização televisiva, a memória pública segue sendo cultivada por outras mídias. No Teatro Anteo de Milão foi exibido o documentário de Simone Manetti, apresentado na presença da família das vítimas e da advogada Ballerini, que recebeu um prêmio “pela sua batalha por justiça e liberdade”. Esses atos de lembrança — ficção e documentário lado a lado — compõem um eco cultural que reforça a necessidade de resgatar narrativas menos óbvias, as pequenas resistências que não entram nos manuais.
Ao assistir Morbo K, convém perceber o trabalho da minissérie como um convite a olhar além da superfície dramática: é uma reinterpretação da memória através da linguagem audiovisual, uma semiótica do viral que transforma o medo em arma contra a barbárie. Em tempos em que a desinformação e as sombras do autoritarismo ressurgem com novas roupagens, a história do professor Prati nos lembra que o heroísmo pode assumir formas discretas e que o papel do artista é iluminar esses contornos.
Para quem busca mais do que entretenimento, Morbo K oferece um roteiro de reflexão: como preservamos a dignidade humana quando as ordens do poder querem reduzir as pessoas a números? E a performance de Vincenzo Ferrera é, em si, um convite a revisitar o passado — não como nostalgia, mas como instrumento crítico. É essa visão que torna a minissérie um espelho do nosso tempo e um chamamento para a vigilância ética.
Datas de exibição: 27 e 28 de janeiro de 2026, em primeira serata na Rai 1. A recomendação é acompanhar também o documentário e os debates programados nas salas e plataformas que seguem ampliando a conversa pública sobre esses fatos.






















