Kid Yugi lança seu terceiro álbum, Anche gli eroi muoiono, e entrega ao público um trabalho que é simultaneamente uma declaração estética e um diagnóstico cultural. A saída do disco, prevista para sexta-feira, chega no ponto de convergência entre a urgência das ruas e uma paleta de referências eruditas que transforma cada faixa em uma pequena caçada de sentidos — o tipo de obra que pede atenção e leitura atenta.
“É difícil criar algo de novo em um mundo em que já foi dito tudo”, confessa Kid Yugi, mas é justamente nessa aparente impossibilidade que ele constrói seu universo. No repertório do disco, a voz crua do artista lembra que a rua não é “coisa de bully nas redes sociais”, mas um território que arde, uma matéria-prima de experiência e risco. O registro gráfico do álbum — o rapper retratado dentro de um caixão — não é mero gesto estético: é um rito de exorcismo sobre as expectativas depositadas no artista e uma reflexão sobre como, na contemporaneidade, a figura do herói foi diluída.
O conceito que atravessa o disco parte de uma constatação direta: na sociedade consumista atual, bem e mal se parecem, e a capacidade de reconhecer modelos autênticos se perde. “A sociedade supriu isso da forma mais estúpida e injusta: tornando todos especiais. Ou pelo menos nos deixando acreditar nisso”, diz ele. Essa cegueira coletiva cria uma dramaturgia onde o mito do herói é substituído por uma celebração da singularidade fabricada — uma cena que parece saída do roteiro oculto da sociedade moderna.
O mosaico de citações que povoa as letras é parte essencial do estilo do artista. De Carmelo Bene a Arancia meccanica, do cinema de Shinya Tsukamoto — “mostra como somos peões nas mãos da sociedade” — à voz de Lindo Ferretti dos CCCP, o álbum tem ecos que vão da poesia do turco Nâzım Hikmet às tragédias de Dostoevsky. Essa intertextualidade funciona como um mapa para o fã: uma caça ao tesouro intelectual que eleva o rap a território de diálogo literário e cinematográfico.
A leitura dos clássicos foi decisiva para a formação de sua voz. “Lendo Delitto e castigo aos 13 anos, senti a sua dor e entendi a força das palavras”, lembra. Depois de um período de bloqueio criativo, foi um presente — La luna e i falò de Pavese — que reabriu a via da escrita. Ler, para ele, é combustível: há meses em que devora três, quatro livros como quem respira fundo para retornar ao ofício.
No plano estético, Kid Yugi define seu projeto como post-futurismo. Se os futuristas do século XX tentaram domesticar o ruído da máquina no texto, ele procura domar aquilo que o homem produz através da máquina: a hiperinformação. Nesse excesso, “estamos reduzidos a um nó numa rede de informação”, uma proximidade que, paradoxalmente, grita no ouvido e impede o discernimento.
O conflito, tema recorrente, aparece em duas frentes. O interno, em “Davide e Golia”, onde o artista lembra que cada ser humano carrega o herói e o gigante ao mesmo tempo. O externo, em “Per il sangue versato”, é um manifesto dirigido aos jovens do seu sul — Massafra, no interior de Taranto — que caem nas armadilhas da criminalidade. A mensagem é clara e severa: quem se perde em ideais alheios e normas da rua muitas vezes se arruína a vida.
Como analista cultural, vejo em Anche gli eroi muoiono mais do que um álbum: um espelho do nosso tempo, onde a semiótica do viral encontra a narrativa clássica, e onde o rap se coloca como dispositivo de reframe da realidade. Kid Yugi não faz apenas música: ele costura memória, leitura e urgência social num roteiro que nos pede, com delicadeza áspera, que voltemos a perguntar quem são os verdadeiros heróis.
Data da publicação original: 28 de janeiro de 2026





















