Por Aurora Bellini — Há histórias que iluminam horizontes e semeiam novos olhares sobre o mundo natural. É o caso de Ape Maia, a pequena abelha que, há meio século, voou das páginas para a televisão e se instalou no imaginário coletivo como uma pioneira da defesa da biodiversidade.
A trajetória começa bem antes da telinha. Em 1912, o escritor alemão Waldemar Bonsels publicou o romance Die Biene Maja und ihre Abenteuer, onde a protagonista surge, curiosamente, como um fuco — isto é, um macho — que abandona a colmeia para conhecer o mundo humano e as maravilhas naturais. A obra não era dirigida apenas às crianças: seus leitores não tinham idade, e a narrativa trazia uma sensibilidade quase romântica pela natureza.
Foi, porém, na animação japonesa que a história ganhou um novo corpo e voz. Transmitida no Japão em 1975 e chegada à Itália em 1980, a versão televisiva transformou a personagem em fêmea, consolidando-a como ícone cultural. O desenho não apenas conquistou gerações de espectadores: virou fenômeno global, atravessando fronteiras e linguagens — livros, gibis, brinquedos, filmes, videogames, roupas e um vasto merchandising. Hoje, a pequena abelha celebra 50 anos dessa presença contínua.
O apelo de Ape Maia não se limitou ao entretenimento. Sua força foi divulgar valores como o respeito pela natureza, a importância da convivência entre seres e a celebração da biodiversidade. O refrão da canção tema — popularizado na Itália por Katia Svizzero com o contagiante “Vola, vola, vola l’Ape Maia” — chegou a ultrapassar nas paradas nomes como Adriano Celentano e até clássicos dos Pink Floyd, mostrando que a mensagem ambiental podia ecoar forte também nas ondas do rádio e nas vitrolas.
Para marcar esse marco, a mostra “L’Ape Maia. 50 anni in volo” foi organizada em Desio, na Villa Tittoni, com curadoria de Luca Bertuzzi e Enrico Ercole, e realizada pela Fondazione Franco Fossati, WOW Spazio Fumetto e DeA Planeta Entertainment, em parceria com o Comune di Desio. A exposição, de entrada livre nos finais de semana das 10h às 19h até 8 de fevereiro, traz um percurso que reconstrói a história da personagem e sua capacidade única de traduzir ciência e sensibilidade num gesto acessível a todas as idades.
Em conversa com a Espresso Italia, Enrico Ercole lembrou que a versão literária já apontava para uma figura curiosa e rebelde, interessada em aprender com o mundo além da colmeia. A transposição audiovisual, explicou, potencializou essa curiosidade e transformou a abelha em uma professora da coexistência — uma mensageira que ensina a ver a natureza não apenas como cenário, mas como patrimônio a ser cuidado.
Hoje, quando enfrentamos desafios concretos sobre polinizadores, conservação e políticas públicas ambientais, a memória da Ape Maia nos oferece uma luz: a pedagogia da ficção pode mobilizar consciências, inspirar ações e criar redes de cuidado capazes de florescer no tempo. Celebrar seus 50 anos é, portanto, celebrar um pouco do que podemos cultivar juntos — um renascimento cultural em que histórias e ciência andam de mãos dadas.
Se a pequena abelha nos ensinou a voar mais alto em direção ao conhecimento, seguimos iluminando caminhos práticos para proteger o que nos sustenta. Visite a exposição em Desio e deixe-se inspirar — para plantar, aprender e agir.





















