Por Marco Severini — Em um gesto calculado e sem hesitações, a secretária do Departamento de Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem, posou diante de presos amontoados na controversa mega‑prisão salvadorenha do Cecot. A imagem voltou‑se símbolo da linha dura adotada pela administração Trump contra a imigração irregular — uma demonstração de força que, ao mesmo tempo, expõe as fragilidades e riscos estratégicos dessa política.
O estilo musculoso que elevou Noem à condição de ícone do trumpismo enfrenta agora críticas crescentes. A queda política da ex‑governadora do South Dakota, 54 anos, ainda não se concretizou: o presidente reafirmou que ela “está fazendo um ótimo trabalho” e que “permanece no cargo”. Porém, após a morte em Minneapolis de outro cidadão americano atingido por um agente federal, Washington deslocou uma peça chave do tabuleiro migratório: Tom Homan, figura conhecida por sua ênfase em expulsões.
O presidente explicou que “Tom é severo mas justo e responderá diretamente a mim”. Noem saudou a decisão nas redes (X), mas relatos persistentes na imprensa apontam tensões internas entre a secretária e Homan, sobretudo sobre a amplitude e os objetivos das grandes reterações contra migrantes ordenadas pela Casa Branca. A porta‑voz presidencial, Karoline Leavitt, descartou qualquer redução do papel de Noem, garantindo que ela “goza da plena confiança do presidente” e segue supervisionando o departamento e a política migratória nacional.
O embate ganha contornos judiciais e políticos. Após a morte do enfermeiro Alex Pretti, atribuída a um agente da patrulha de fronteira, Noem invocou prontamente a “legítima defesa” do autor dos disparos — postura já adotada anteriormente após a morte de Renee Good, baleada em 7 de janeiro em Minneapolis por um agente do ICE, versão que depois sofreu revisão diante das imagens do tiroteio.
Em reação ao caso Good, uma deputada democrata apresentou uma moção de impeachment contra Noem, que reuniu 120 coassinaturas — mais da metade dos democratas da Câmara. A secretária também apareceu no centro de disputas com o Judiciário: em novembro, quando questionada sobre por que a administração ignorara uma ordem de um juiz federal que suspendia expulsões para El Salvador, a Casa Branca reconheceu que a decisão partira diretamente da ministra. Meses depois, Noem visitou o Cecot e publicou fotos diante das celas, com mensagem clara e intimidatória dirigida a migrantes ilegais.
Filha de um rancheiro e mãe de três filhos, Kristi Noem é considerada um dos pilares do movimento MAGA, representando a ala mais fiel a Trump dentro do Partido Republicano. Sua postura ultraconservadora e sua opção por métodos punitivos configuram um movimento decisivo no tabuleiro da política migratória americana, mas também revelam os alicerces frágeis da diplomacia quando estratégia externa e respeito ao direito se chocam.
No centro dessa tectônica de poder, a Casa Branca precisa calibrar duas necessidades em confronto: manter a retórica de mão dura, capaz de energizar a base política, e administrar as consequências legais e reputacionais que incidem sobre relações internacionais e ordem interna. A substituição tática — ainda que parcial — de peças, como o envio de Homan, indica um redesenho de influência que pode redestribuir responsabilidades sem, necessariamente, sacrificar a figura da secretária.
Em resumo, a trajetória de Kristi Noem ilustra um dilema clássico de Realpolitik: a busca por controle e espetáculo coercitivo, ao custo de tensões institucionais, pressões judiciais e riscos geopolíticos. Um movimento no tabuleiro cujas próximas jogadas exigirão, mais do que força bruta, precisão estratégica.






















