Por Marco Severini — Em movimento que redesenha, ainda que parcialmente, os contornos do episódio em Minneapolis, um relatório preliminar encaminhado ao Congresso pelo Departamento de Segurança Interna aponta que foram dois os agentes que abriram fogo contra Alex Pretti no último sábado. O documento, obtido e analisado pela CNN, resulta da investigação inicial conduzida pela Customs and Border Protection (CBP) e foi produzido pelo Escritório de Responsabilidade Profissional da agência.
De acordo com o relatório, durante a contenção no solo houve um momento em que um agente teria gritado repetidas vezes: “Ele tem uma arma” antes que outros dois colegas disparassem contra Pretti. O texto não especifica de forma conclusiva se projéteis disparados por ambos os agentes atingiram a vítima, deixando espaço para dúvidas técnicas que agora deverão ser apuradas nas próximas etapas periciais.
Uma análise independente, feita pela CNN sobre as imagens públicas do confronto, sugere um dado inquietante: em determinado instante, um agente aparenta remover a arma da cintura de Pretti poucos instantes antes dos tiros. Essa sequência — se confirmada em laudos técnico-forenses — altera substancialmente a cronologia e as responsabilidades narrativas sobre o que ocorreu no local.
Mais amplamente, trata-se de uma peça inicial num conjunto de investigações que se sobrepõem: além da apuração interna da CBP pelo seu Escritório de Responsabilidade Profissional — cuja finalidade é investigar potenciais condutas criminais de seus agentes —, há inquéritos em curso por parte da agência investigativa do Departamento de Segurança Interna e pela autoridade estadual responsável pelo processo penal em Minnesota. Esse arranjo institucional descreve uma verdadeira tectônica de poder, com estruturas federais e estaduais buscando consolidar versões e responsabilidades.
No front político, a repercussão nacional chegou à Casa Branca. O presidente Donald Trump rejeitou empregar o termo “assassino”, utilizado pelo seu conselheiro Stephen Miller para qualificar Pretti, mas enfatizou que a presença de uma arma em uma manifestação é inapropriada. À imprensa, quando questionado se a vítima teria se comportado como um “assassino”, o presidente respondeu “Não”, e acrescentou que, de qualquer forma, não se deveria comparecer a protestos armado. “Foi, de qualquer modo, um incidente realmente lamentável”, resumiu.
Do ponto de vista geopolítico e de ordem interna, o caso abre frentes delicadas: a necessidade de uma investigação transparente e tecnicamente irrepreensível atravessa o tabuleiro político, afetando relações entre agências federais, governos estaduais e a opinião pública. A analogia é de uma partida de xadrez em que cada movimento — seja um laudo balístico, seja a liberação de imagens ou declarações públicas — redesenha linhas de influência e define os próximos lances institucionais.
Enquanto os inquéritos prosseguem, o país observa com atenção. A exigência é dupla: rigor técnico nas perícias e clareza institucional nas explicações. Só assim as bases — já frágeis — da confiança pública em agências com poder de força poderão ser remendadas. Em termos práticos, o desfecho das investigações determinará se o episódio será encerrado como um trágico erro operacional ou se se transformará em precedente jurídico e político de maior alcance.






















