Marco Severini — Em um movimento retórico de alto impacto, o primeiro‑ministro israelense Benyamin Netanyahu voltou a declarar que Israel manterá o controle de segurança “do rio Jordão ao mar“, estendendo essa lógica também à Faixa de Gaza. A afirmação foi proferida durante conferência de imprensa transmitida televisivamente, na qual o premiê também lançou uma acusação direta contra o ex‑presidente norte‑americano Joe Biden e o embargo de armas imposto pela sua administração em junho de 2024.
Segundo Netanyahu, o embargo teve consequências operacionais graves: “por causa deste embargo alguns soldados do exército israelense caíram na Faixa de Gaza porque não tínhamos munições”. É uma colocação que não apenas expõe um conflito diplomático entre aliados como também redesenha, no debate público, os alicerces frágeis da logística militar israelense — um movimento de xadrez que visa deslocar responsabilidades e consolidar uma narrativa de cerco externo.
Na esfera regional, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman assegurou ao presidente iraniano Masoud Pezeshkian que o Reino não permitirá o uso de seu espaço aéreo ou território para ações militares contra o Irã, segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita. Trata‑se de um gesto de contenção estratégica que, na prática, busca prevenir a abertura de novos eixos de escalada.
Enquanto isso, o balanço humano na Gaza devastada segue a marcar números que destoam de qualquer normalidade: as autoridades sanitárias locais reportam 71.662 mortos desde o início do conflito entre Hamas e Israel, em 7 de outubro de 2023, e 171.428 feridos. Nos últimos dois dias, hospitais registraram mais dois cadáveres e nove feridos. Entre os dados mais dolorosos, um recém‑nascido de 12 dias morreu de hipotermia nas últimas 24 horas, elevando para 11 o total de mortes relacionadas ao frio desde o início do inverno.
No teatro sírio, o Kremlin confirmou que o presidente Vladimir Putin receberá o presidente sírio Ahmed al‑Sharaa em Moscou para discutir o estado das relações bilaterais e a atual conjuntura no Oriente Médio. A visita, levantada inicialmente pelo canal SyriaTV, insere a Síria novamente num tabuleiro onde atores globais calibram influência e garantias de segurança.
Em paralelo, mídias estatais sírias indicam um acordo preliminar entre Damasco e forças curdo‑sírias: um cessar‑fogo em todos os frontes e o início de um desdobramento de forças de segurança governamentais nas principais cidades do nordeste, incluindo Hasake e Qamishli. Fontes citadas por SyriaTV mencionam o envio de membros do Ministério do Interior a áreas consideradas “vitais” para segurança — um redesenho de fronteiras invisíveis que tenta equilibrar soberania formal com a presença local das forças curdas, que, segundo o comunicado, permaneceriam onde estão.
O quadro sobre Kobane aparece como mais um ponto sensível: relatos apontam que a cidade está sob cerco, cenário que evidencia a continuidade da tectônica de poder na Síria e o perigo de uma escalada que envolveria múltiplos atores regionais e internacionais.
Em termos estratégicos, assistimos hoje a três vetores simultâneos: a confrontação discursiva e logística entre aliados no âmbito israelense‑estadunidense; a reafirmação saudita de limites geográficos em relação ao Irã; e o reposicionamento russo‑siriaco num nordeste sírio onde o fim aparente das hostilidades pode apenas representar um rearranjo tático. No tabuleiro da diplomacia, cada movimento busca consolidar posições antes que um lance adversário reconfigure os termos da partida.






















