Em uma noite que misturou música, memória e humanidade, Renato Zero converteu um momento de seu show em Roma num gesto que ultrapassa o palco: desceu às plateias do Palazzo dello Sport para abraçar a apresentadora Enrica Bonaccorti. A cena aconteceu durante a segunda etapa do tour L’Orazero, onde o cantor romano tem celebrado seu retorno aos palcos com uma estética que funciona como espelho do nosso tempo.
Antes do encontro íntimo, Renato usou o microfone para falar sobre o poder das mulheres e para lembrar, com dor contida, das vozes que lhe são tiradas — uma referência implícita ao recente feminicídio de Federica Torzullo. Em seguida, interpretou a canção “Libera”, acompanhada de uma dedicatória que misturou ironia e reverência: “Dio ha creato un sacco vuoto, è l’uomo e poi ha fatto Eva” — frase recebida sob aplausos e reflexão.
O ponto mais comovente veio quando o artista desceu entre as filas e se direcionou à cadeira onde estava Enrica Bonaccorti, acompanhada da filha Verdiana. Sem a peruca que costumava usar, visivelmente fragilizada pela batalha contra o câncer de pâncreas diagnosticado em setembro passado, a apresentadora recebeu o abraço caloroso. “Devo dare un abbraccio a una donna e voi capite il perché”, disse Renato ao público, antes de apertá-la em um gesto que interrompeu a lógica do espetáculo para transformar tudo em um ato de solidariedade.
Bonaccorti, emocionada, respondeu com simplicidade e verdade: “Questo uomo mi ha rubato il cuore per sempre” — ou, na tradução do afeto, “este homem me roubou o coração para sempre”. Aquela breve troca funcionou como um pequeno roteiro oculto da sociedade: uma celebração da amizade que resistiu às décadas e agora se apresenta como urgência afetiva diante da fragilidade humana.
Enquanto muitos shows guardam distância entre artista e público, o abraço de Renato Zero refrata aquilo que o entretenimento pode fazer de melhor: apontar fissuras, convocar empatia e transformar plateias em testemunhas de histórias reais. A cena, mais do que uma foto emocional, virou um eco cultural sobre longevidade, memória e solidariedade.
Para além do afeto entre dois velhos amigos — ligados por uma história de amor nos anos 1970 que evoluiu para amizade sólida —, o gesto ressoa como um chamado: a arte como palco de denúncia e de cura, e o público como espelho que reconhece, aplaude e se comove. Em tempos em que a voz de muitas mulheres é silenciada, aquele abraço no Palazzo dello Sport simboliza a resistência de afetos e memórias que o tempo não conseguiu apagar.
Como observadora, vejo nesta cena um pequeno refrão do nosso tempo: a narrativa pública se entrelaça com a experiência íntima, e o artista se transforma — por um instante — em ponte entre a tragédia e a ternura. Renato e Enrica não apenas compartilharam um abraço; ofereceram ao público uma lição de humanidade.






















