Uma trajetória construída a suor e partidas de alto nível poderia ter levado Lorenzo Musetti à sua primeira semifinal no Australian Open. Com as últimas vitórias, o tenista italiano consolidou-se entre os cinco melhores do ranking ATP e vinha exibindo uma evolução técnica e mental visível: o Musetti “incazzoso” — que se deixava dominar pelos erros — cedeu lugar a um jogador mais sereno e focado no jogo.
Na apuração e no cruzamento de fontes sobre a vida extra-court do atleta, ficou claro que a transformação também tem raízes na esfera pessoal. A família foi apontada pelo próprio jogador como elemento decisivo desse salto qualitativo. Dois nascimentos recentes marcaram momentos importantes da carreira: o primeiro filho, Ludovico, nasceu em 2024, num intervalo entre Indian Wells e Miami — circunstância que levou Lorenzo Musetti a voltar à Itália imediatamente após a derrota para Holger Rune na Califórnia para acompanhar o parto ao lado da esposa, Veronica. O segundo, Leandro, veio ao mundo em novembro passado.
Essas chegadas redefiniram horizontes para Musetti, oferecendo-lhe tranquilidade e uma nova régua competitiva. A mudança ficou visível nas quadras: menos exibições acaloradas diante das câmeras e mais foco tático. O jogador repetia em entrevistas: “Não devo pensar na partida, devo jogar a partida”. E, naquele duelo contra Novak Djokovic, parecia estar colocando a máxima em prática.
Desde o primeiro ponto, o jovem “Pinturicchio” do tênis italiano ditou ritmo. Forçando o sérvio no fundo de quadra, usando com precisão os rovescios cruzados, chegando a todas as bolas curtas e surpreendendo com o rovescio paralela, Musetti venceu os dois primeiros sets com autoridade. A leitura tática e a execução estavam a seu favor.
O desfecho, porém, foi ditado por um episódio clínico: no terceiro set, no terceiro game, uma fisgada na coxa direita mudou a história. A expressão de dor no rosto do italiano deixou claro para quem acompanhava que não se tratava de um desconforto passageiro. Testado pelos membros de sua equipe a prosseguir, Musetti, quase em lágrimas, foi até o banco e resumiu a situação com franqueza: “Tenho uma s…”, recusando a continuidade.
O relato de Novak Djokovic, colhido na conferência de imprensa, reforçou a tragédia esportiva: “Eu estava pronto para ir para casa. Ele deveria ter vencido.” A frase sintetiza o que o jogo vinha sendo antes da lesão: uma oportunidade real para o italiano alterar o histórico — até então pouco honroso — de 9-1 em confrontos diretos contra o sérvio.
Do ponto de vista técnico e emocional, o episódio representa tanto o auge quanto a frustração da jornada recente de Lorenzo Musetti: a consolidação entre os melhores do mundo, o equilíbrio trazido pela família e, ao mesmo tempo, a impotência diante de uma lesão que interrompe um processo em franca ascensão. Na análise fria dos fatos, o que fica é um jogador em evolução e uma carreira que, apesar do revés, preserva ganhos substantivos para os próximos torneios.






















