A nova letteratura artistica: um reframe do cânone
Às vezes o passado retorna como um espelho: não para repetir o que já foi dito, mas para nos mostrar o que esquecemos de ler nas entrelinhas. É esse reframe que propõe La nuova letteratura artistica, obra recente publicada pela Zanichelli, assinada por Donata Levi e Giovanni Mazzaferro. Lançado como o primeiro tomo de um ambicioso projeto em três volumes, o livro não se limita a atualizar o clássico de Julius von Schlosser de 1924; reinventa os pressupostos do estudo das fontes da história da arte e abre caminhos para uma disciplina em conversação com o século XXI.
Com preço sugerido de 33 euros na versão impressa + digital e 24 euros apenas em versão digital, o volume oferece uma visão renovada e multifacetada do que entendemos por literatura artística, acompanhando textos e discursos sobre arte em seus deslocamentos históricos e geográficos, da alta antiguidade até o final do Quattrocento. É uma viagem erudita, pensada tanto para a sala de aula quanto para a prancheta do pesquisador.
A proposta de Levi e Mazzaferro parte de um diagnóstico claro: se Schlosser estabeleceu um cânone imprescindível — de Cennino Cennini a Leon Battista Alberti, de Giorgio Vasari a Giovanni Pietro Bellori —, a nova obra assume a complexidade da disciplina, incorporando as mais recentes conquistas da investigação acadêmica e a pluralidade de fontes que moldaram o discurso artístico ao longo dos séculos.
O volume distingue-se, também, por sua arquitetura editorial. Cada capítulo é dividido em duas seções complementares: uma parte introdutória e de enquadramento geral, pensada para estudantes e leitores interessados, e uma seção técnica destinada a operadores profissionais, com aprofundamentos temáticos e um robusto aparato bibliográfico. Um índice de fontes final torna o livro um instrumento de consulta prático, não apenas uma leitura historiográfica.
Os perfis dos autores refletem essa dupla vocação entre academia e pesquisa independente. Donata Levi, professora de História da crítica de arte e Museologia na Universidade de Udine e presidente da Fundação Memofonte, traz a solidez de uma carreira dedicada ao estudo crítico e às instituições culturais. Giovanni Mazzaferro, estudioso independente e criador do blog “Letteratura artistica”, contribui com uma sensibilidade voltada para as fontes e a circulação dos textos artísticos.
Essa obra se apresenta, portanto, como uma referência destinada a leitores diversos: pesquisadores, docentes, estudantes e profissionais do campo das artes. Mais do que uma simples atualização, trata-se de um reposicionamento interpretativo — um roteiro oculto que nos convida a reler as origens do pensamento artístico com os instrumentos críticos do presente. Em tempos em que a cultura repensa suas genealogias, La nuova letteratura artistica surge como um espelho do nosso tempo: mostra quem fomos e, sobretudo, aponta para os caminhos possíveis do que ainda podemos ser.
Chiara Lombardi, para Espresso Italia






















