Por Chiara Lombardi — Em um diálogo que parece um espelho do nosso tempo, Federico D’Annunzio, descendente do poeta e empresário do setor de inovação digital, propõe uma leitura que mistura direito, tecnologia e estética no seu novo livro publicado pelas Edizioni San Paolo: Habeas Corpus. Chi saremo nell’era dell’Intelligenza Artificiale, nas livrarias desde 21 de janeiro.
O autor, que além de herdeiro genealógico é empreendedor na indústria da inovação, defende que a inteligência artificial não é apenas ferramenta técnica, mas um percurso profundo pelo qual o homem reencontra a sua própria beleza — um movimento que, segundo ele, aponta “para o absoluto”. É uma visão que reconfigura a relação entre sujeito e máquina: a IA como espelho, revelando traços da nossa identidade e exigindo novos horizontes éticos.
Ao longo do ensaio, D’Annunzio traça a necessidade de uma governança que não deixe a tecnologia «à rédea solta». Para ele, é indispensável proteger simultaneamente os direitos humanos e aquilo que chama de direitos da identidade artificial — uma proposta que desloca o debate do mero regulamento técnico para uma reflexão jurídica e cultural mais ampla.
No cerne do livro está o princípio jurídico do Habeas Corpus, originalmente garante da inviolabilidade da liberdade e da integridade física e psíquica. D’Annunzio amplia essa ideia para o que descreve como Corpo Estendido: o conjunto de dados, perfis e interações digitais que hoje prolongam e reconstroem a individualidade além do corpo biológico. Essa expansão exige, conforme o autor, novas categorias conceituais e instrumentos legais que assegurem a dignidade desse corpo ampliado.
Entre as propostas mais provocadoras do autor está o conceito de Neurocene: uma era emergente onde três formas de inteligência — a humana, a artificial e a da natureza — coabitam e se entrelaçam. Essa tríade, escreve D’Annunzio, redesenha o roteiro oculto da sociedade e convoca uma ética capaz de integrar multiplicidades de inteligência, em vez de hierarquizá-las.
Há também um traço pessoal que atravessa o texto. O autor revela ter confirmado sua ligação familiar com o Vate por meio de um exame de DNA, realizado pelos RIS de Cagliari, a pedido de Giordano Bruno Guerri. Descendente direto de Ugo Veniero, ele se descreve como quarto príncipe de Montenevoso — um detalhe biográfico que dá densidade simbólica ao discurso sobre memória, linhagem e identidade.
Como observadora do zeitgeist, vejo no livro mais do que uma defesa técnica da IA: há um esforço para inscrever tecnologia e direitos numa trajetória humanística. A proposta de D’Annunzio funciona como um reframing da realidade: se chamamos de progresso o que altera nosso espelho coletivo, cabe-nos decidir que tipo de imagem queremos preservar.
O desafio que o autor nos coloca é, em última instância, cultural e político. Criar instrumentos jurídicos para o Corpo Estendido, reconhecer direitos da inteligência artificial e conceber uma governança que contemple a tríade do Neurocene são tarefas que exigem uma narrativa pública renovada — um novo humanismo digital que entenda a tecnologia não só como ferramenta, mas como cena de transformação da condição humana.
Em tempos em que o entretenimento e a tecnologia dialogam com a memória coletiva, este livro é leitura obrigatória para quem quer entender o roteiro da nossa próxima cena histórica: a tecnologia como espelho, a lei como guardiã e a beleza humana como horizonte.






















