Bruxelas – Uma investigação conjunta de importantes jornais europeus traça um quadro inquietante: o que lhe vendem como solução de economia circular pode ser, na verdade, um artifício bem ensaiado de greenwashing promovido pela indústria petroquímica. No centro do tabuleiro está a técnica da pirólise e a contabilidade conhecida como balanço de massa, que estão a ser transformadas em argumentos para rotular embalagens como “recicladas”, embora permaneçam na sua maior parte de base fóssil.
Reportagens do The Guardian, Mediapart, Deutsche Welle, Altreconomia e outros órgãos independentes documentam a cadeia que liga marcas de consumo — de Heinz Beanz (Kraft) a Philadelphia (Mondelēz) — a players petrolíferos como a estatal saudita Saudi Aramco e sua afiliada petroquímica Sabic. A estratégia, em termos diplomáticos e industriais, equivale a um movimento calculado no tabuleiro: redesenhar percepções, sem alterar substancialmente as peças do jogo.
O processo de pirólise converte resíduos plásticos em um líquido — o chamado óleo de pirólise — que, quando usado como matéria-prima, representa tipicamente até 5% do conteúdo do lote final. Na prática, esse óleo é diluído em grandes quantidades de nafta virgem, produto direto da refinação do petróleo. Registros públicos e as próprias contas de emissões das empresas apontam que, no cálculo global, o processo pode gerar entre 6% e 8% mais emissões do que a produção de plástico convencional a partir de combustíveis fósseis.
Para contornar essa incongruência, a indústria recorre a duas artimanhas técnicas: a primeira é a aplicação do princípio do balanço de massa, pelo qual lotes de produção recebem um rótulo de “100% reciclado” nos documentos, ainda que contenham predominantemente matéria-prima fóssil. A segunda é a contabilização de “emissões evitadas”, que subtrai o carbono que seria liberado pela incineração de volumes equivalentes de resíduos, produzindo assim um benefício climático aparente.
Essas certificações são emitidas por plataformas lideradas pela própria indústria, como a International Sustainability and Carbon Certification (ISCC), e passam dos produtores de polímeros para as marcas embaladas. A investigação revela que, na prática, a quantidade de óleo de pirólise no plástico certificado por grandes produtores como a Sabic pode estar significativamente abaixo do teto de 5% anunciado, tornando a narrativa da circularidade frágil.
Em termos institucionais, a pressão do setor petroquímico está a produzir efeitos: fontes apontam que as instituições europeias ponderam incluir o princípio do balanço de massa em futuras normas sobre plástico e embalagens, inclusive numa possível revisão da diretiva sobre plástico de uso único (SUP). Trata‑se de um movimento que, se consumado, redesenhará fronteiras regulatórias invisíveis, fortalecendo alicerces frágeis da diplomacia ambiental.
Da perspectiva estratégica, não se trata apenas de rótulos e contabilidades: é um exercício de poder sobre regras e legitimidade. Como num final de partida de xadrez, cada concessão normativa pode abrir linhas de ataque ou defesa para setores que detêm enorme capacidade de influência geoeconômica. A estabilidade climática e a credibilidade das políticas de circularidade dependem de que as instituições europeias resistam a atalhos que acomodem emissões reais por meio de contabilidades virtuosas.
Marco Severini
Analista sênior de geopolítica e estratégia, Espresso Italia



















