Por Chiara Lombardi — No grande Sanremo 2026 a primeira leitura não é só melódica: é visual e semântica. Os títulos das canções funcionam como pequenas antecâmaras emocionais, o rascunho do que o artista promete entregar no palco — um cenário, um sentimento, uma memória coletiva. Vasculhando a lista dos participantes deste ano, surge com clareza uma dupla pulsação do Festival: a segurança do já conhecido e a faísca da novidade.
Essa continuidade é quase genética. Palavras e verbos que já fazem parte do imaginário sanremês reaparecem como velhos protagonistas. É impossível não notar o eco do verbo “volare”, citado 111 vezes ao longo das 75 edições anteriores, reaparecendo na peça emocional de Enrico Nigiotti com o título “Ogni volta che non so volare”. Do mesmo modo, expressões de aproximação íntima — “qui con me”, “resta con me” — remetem diretamente à memória coletiva da canção italiana, porque o Festival historicamente se alimenta de afetos e confidências.
Dados extraídos da base Le parole di Sanremo, criada pelo linguista Massimo Arcangeli com Luca Pirodda e consultada pela Adnkronos, ajudam a mapear esse repertório léxico. Termos como “qui” aparecem em 563 títulos anteriores, e “con me” em 651 ocasiões — números que explicam por que estruturas como “Il meglio di me”, “Ti penso sempre” ou “Le cose che non sai di me” soam quase como costumes sintáticos do Festival. A escolha do elenco parece, assim, deliberadamente ancorada numa linguagem que conforta o público.
Porém, sob essa superfície familiar emergem lampejos de inventividade. A originalidade às vezes se dá por elipses, outras por palavras isoladas que carregam o palco. Ditonellapiaga com seu “Che fastidio!” usa a interjeição como gesto performático; Fulminacci mistura um adjetivo frequente com um substantivo raro em “Stupida sfortuna”; Arisa aposta na combinação poética de “Magica favola”; Malika Ayane propõe a imagem inquietante de “Animali notturni”; e a dupla Fedez e Marco Masini traz a tensão semântica de “Male necessario”. Cada título é um fotograma que promete uma cena.
Também chama atenção o que falta: quase zero títulos em dialeto — presentes apenas como citação ocasional no corpo da canção — e muito poucos estrangeirismos. O que surge fora do leque linguístico habitual, como o curioso “Starter pack” de J-Ax ou o refinado “Voilà” de Elettra Lamborghini, sobressaem justamente por essa raridade.
Há ainda a questão do formato. Títulos monosilábicos ou nominais, como em algumas propostas desta edição, tornam a palavra isolada protagonista absoluta — um cartaz minimalista que carrega peso simbólico. Em contraponto, construções coloquiais continuam a privilegiar uma linguagem quase íntima, confessional, que transforma cada faixa num pequeno contrato emocional com quem assiste.
Do ponto de vista cultural, o que os nomes das músicas nos mostram é o roteiro oculto do Festival: Sanremo permanece espelho do nosso tempo ao conjugar tradição e experimentação. Entre a solenidade que artistas veteranos como Patty Pravo evocam e a ironia moderna de nomes como Dargen D’Amico, os títulos revelam não apenas estratégias comerciais ou estéticas, mas também uma geografia afetiva — o modo como a Itália contemporânea se enxerga, relembra e reinventa através da canção.
Em suma, ler os títulos do Sanremo 2026 é ler fragmentos de memória e sinais de futuro: é investigar o eco cultural que uma palavra solta, um verbo conhecido ou uma imagem inédita pode produzir no grande palco do tempo.





















