Por Chiara Lombardi — Observadora do zeitgeist, entre o café de Milão e as memórias do cinema: o episódio de Achille Costacurta com a meditação em Calcutá nos revela mais do que uma desistência pessoal; é um espelho do nosso tempo.
O jovem, filho de Billy Costacurta e Martina Colombari, anunciou nas redes sociais que faria uma pausa de 10 dias para participar de um retiro espiritual na Índia. As regras, tão austeras quanto um roteiro minimalista, eram rigorosas: sem telefone, sem falar, sem ler, sem escrever, sem fumar e alimentando-se apenas com vegetais. Era, nas palavras dele, um mergulho radical na prática contemplativa.
Porém, o experimento durou menos do que o previsto. “Não resisti” (“Non ho resistito”), confessou Achille em uma volta às redes: o plano inicial de 10 dias sucumbiu após aproximadamente 70 horas. Ele explicou que as jornadas diárias de cerca de 12,5 horas de meditação foram determinantes para a sua saída precoce. “Depois de 70 horas preferi ir embora. Não conseguia mais manter a concentração, sendo esse meu primeiro contato com esse mundo”, afirmou, ao mesmo tempo em que declarou estar “feliz” e “satisfeito” com a experiência.
Há aqui uma cena dupla: de um lado, a imagem romântica do retiro — quase cinematográfica, com a disciplina austera e o silêncio absoluto; do outro, a realidade humana do corpo e da mente que ainda não estão prontos para um corte tão radical com os estímulos modernos. É um reframe da realidade contemporânea: queremos detox digital e purificação interior, mas habitamos um cenário cultural que moldou nossa atenção de outra maneira.
O episódio de Achille Costacurta também funciona como uma pequena parábola sobre a relação entre performance espiritual e pressa moderna. A expectativa de obter transformação em um curto período muitas vezes colide com a paciência necessária para o trabalho interior — como um filme acelerado que perde nuances essenciais. A sua franqueza ao admitir a incapacidade momentânea de permanecer no retiro tem, paradoxalmente, a honestidade de um plano de câmera que revela a fragilidade do protagonista em close.
Além do detalhe factual — as regras rígidas do retiro, a duração anunciada e a desistência após 70 horas —, vale notar a postura pública adotada por Achille: primeiro um anúncio de ausência digital, depois o retorno para dividir o resultado da experiência. Essa alternância entre silenciamento e narrativa pública diz muito sobre como a identidade contemporânea se constrói entre o privativo e o performático.
Em termos humanos, a mensagem fica serena: experimentar, mesmo que por pouco tempo, pode trazer aprendizado. Mesmo saindo antes do planejado, Achille declarou-se “feliz” e “satisfeito” — tal qual um espectador que abandona a sessão antes do final, mas que ainda assim sai do cinema tocado por uma cena.
O caso alimenta um debate maior sobre os limites do bem-estar rápidas, o papel das redes na construção de trajetórias espirituais e o choque entre tradição contemplativa e ritmo acelerado das vidas digitais. Como toda boa narrativa, nos convida a olhar além do fenômeno imediato e perguntar: que transformações profundas conseguimos cultivar no tempo que a vida real nos permite?






















