Por Stella Ferrari — Como estrategista de mercados e observadora dos ciclos de qualidade, vejo no reconhecimento do Miele Varesino DOP um exemplo claro de calibragem bem-sucedida entre tradição regional e exigência de mercado. A província de Varese consolidou ao longo do século XX uma vocação apícola singular: um design estratégico de produção que prioriza a excelência do produto em ambientes pouco industrializados.
Em declaração nesta semana, Emilio Ballinari, presidente do Consorzio Qualità del Miele Varesino DOP, lembrou que o título europeu não é um ganho instantâneo, mas o resultado de aproximadamente dez anos de trabalho, culminando no reconhecimento oficial em 2014. Trata-se de um mel de acácia cujas peculiaridades organolépticas e de origem territorial justificaram a distinção da União Europeia. Esse selo atua como um freio contra a commoditização da produção — preservando a origem e apoiando a rentabilidade para apicultores locais.
A ocasião da fala foi o encontro Alleanza per le Api, realizado em Roma na sede do Ministério da Agricultura, promovido pela FAI — Federazione Apicoltori Italiana e pela Fondazione Qualivita, em colaboração com a McDonald’s. Eventos desse tipo funcionam como um motor de visibilidade para cadeias curtas de valor: reúnem produtores, certificadores e atores da cadeia de consumo para discutir políticas públicas, rastreabilidade e proteção da biodiversidade das abelhas.
Do ponto de vista econômico, o percurso do Miele Varesino DOP ilustra como a premiumização pode ser alcançada com disciplina de longo prazo. A estratégia aplicada na província de Varese privilegia a qualidade sobre a quantidade, resultado de práticas apícolas adaptadas ao território e de uma governança coletiva que soube traduzir atributos locais em certificação reconhecida. Essa combinação fortalece a imagem do produto em mercados sofisticados e ajuda a negociar melhores margens para os produtores.
Em termos de políticas públicas e mercado, o selo DOP funciona como parte da caixa de ferramentas de desenvolvimento regional: protege o patrimônio genético, estimula práticas sustentáveis e cria um diferencial competitivo num setor que enfrenta pressões globais de preço. Para os gestores, pensar o mel como um ativo de marca — com rigor de rastreabilidade e comunicação — é tão técnico quanto afinar a suspensão de um veículo de alta performance: exige precisão, testes e ajustes contínuos.
Em resumo, o reconhecimento do Miele Varesino DOP é a prova de que a combinação de tradição, organização consorcial e visão de mercado gera resultados concretos. É também um lembrete de que proteger e valorizar cadeias produtivas locais é essencial para a resiliência econômica e ambiental — um princípio que vale tanto para apicultura quanto para setores de ponta que buscam sustentabilidade e diferenciação.






















