Em um momento incomum de emoção pública, o apresentador Jimmy Kimmel rompeu em lágrimas durante seu programa ao comentar a morte do enfermeiro Alex Pretti, ocorrida durante uma ação de agentes do ICE em Minneapolis. No monólogo, Kimmel descreveu os acontecimentos como uma sequência de atrocidades, denunciando os agentes como mal treinados, liderados de forma vergonhosa, mascarados e violentos.
Na visão do apresentador, atos cometidos por esses agentes não se limitam a excessos: são, segundo ele, “ignobili, cruéis e até criminosos”. Em linguagem direta, Kimmel disse ser “nojento e frustrante” assistir ao que vem ocorrendo, postura que refletiu não apenas indignação pública, mas também uma preocupação ética sobre os limites do poder estatal.
Ao direcionar seu apelo aos eleitores conservadores, Kimmel perguntou retoricamente se aquele é o tipo de “lei e ordem” pelo qual votaram no presidente Trump, convocando vozes sensatas da direita a se manifestarem. “Precisamos que algumas pessoas de bem, à direita, mostrem um pouco de coragem e bom senso”, afirmou, sugerindo que o debate político exige responsabilidades que transcendem lealdades partidárias.
O caso teve impacto pessoal sobre o apresentador: Kimmel explicou ter parentes em Minneapolis e relatou o medo que eles sentem de levar os filhos à escola ou mesmo de ir ao trabalho. “Posso apenas imaginar como se sentem as pessoas que não são brancas”, acrescentou, sublinhando as dimensões raciais e comunitárias do episódio.
Como analista que observa a cena com um olhar de tabuleiro, cabe dizer que o episódio é mais do que um choque isolado: é um movimento que altera equilibrios institucionais. A atuação de órgãos federais como o ICE tem efeitos sobre a percepçã o do Estado, sobre a confiança pública no monopólio legítimo da força e sobre o alinhamento político que sustenta a estabilidade.
Há aqui duas frentes a considerar. Primeiro, a dimensão imediata do fato e suas consequências legais e administrativas: investigações, responsabilidades e resposta institucional. Segundo, a dimensão estratégica e simbólica: como esse tipo de expediente redesenha fronteiras invisíveis entre autoridade e impunidade, abalando os alicerces frágeis da diplomacia interna e da convivência civil.
Do ponto de vista da tectônica de poder, episódios assim funcionam como um xeque em várias frentes — forçam reações políticas, mobilizam sociedade civil e reabrem debates sobre a reforma de agências de aplicação da lei. A pergunta posta por Kimmel, dirigida a conservadores e moderados, é simples e exige uma resposta que vá além do ruído: haverá atores comprometidos com a preservação do Estado de direito a ponto de frear excessos quando estes surgirem do próprio aparelho do Estado?
Num momento em que a opinião pública está polarizada, o apelo por coragem e bom senso é também um convite à prudência estratégica: sem legitimidade internalizada, qualquer movimento de “lei e ordem” arrisca-se a tornar-se um movimento de ruptura social.
Marco Severini, Espresso Italia — análise e geopolítica da estabilidade.






















