Por Alessandro Vittorio Romano — Em Roma, numa manhã que lembra o ritmo pausado de uma paisagem invernal prestes a despertar, a associação Caregiver familiari uniti (CFU) apresentou à Camera, em 27 de janeiro de 2026, um documento que pede o reconhecimento jurídico e socioeconômico da figura do cuidador familiar. Como observa um jardineiro que reconhece a semente antes do broto, o texto denuncia que o trabalho de quem assiste 24 horas por dia exige mais do que solidariedade: exige justiça.
No documento, intitulado “Proposta per il riconoscimento giuridico, economico e sociale della figura del caregiver familiare”, a CFU reivindica a equiparação dessa atividade a uma forma de trabalho. Entre os pontos centrais estão a exigência de uma retribuição adequada, a garantia de contribuição previdencial plena e o acesso às mesmas tutelas sociais e assistenciais previstas para quaisquer trabalhadores, conforme estabelece a Constituição italiana.
Além disso, a associação pede que seja esclarecido quem será o ente pagador — se o Estado ou o INPS — e que seja previsto o reconhecimento retroativo dos anos já dedicados ao cuidado. Pedidos práticos acompanham a proposta: a garantia de férias, períodos de descanso e a disponibilização de caregivers substitutos, para que o cuidador não se transforme numa chama que arde até se apagar.
Outro aspecto sublinhado pela CFU é a inadequação do instrumento do ISEE para avaliar a condição do cuidador familiar h24. Segundo a associação, o ISEE não reflete o real carga assistencial, econômico e social, sendo, por isso, discriminatório. A exigência é clara: o ISEE deve ser superado ou complementado por critérios que considerem o trabalho de cuidado em sua complexidade.
O documento também traz solicitações destinadas aos cuidadors familiares que são trabalhadores, mas o comunicado público não detalha todas as medidas propostas para esta categoria. O essencial, porém, permanece: proteger economicamente e previdenciariamente quem dedica sua vida a cuidar, inclusive nas fases do “dopo di noi” e do “dopo di loro” — imagens que evocam a colheita tardia, a necessidade de garantir segurança quando a estação muda.
Falar de reconhecimento dos cuidadores é, para mim, caminhar entre olivais e cidades: é entender como o tempo interno do corpo e o relógio das instituições se encontram, nem sempre com harmonia. A proposta da CFU convida as autoridades a costurar em lei aquilo que a sociedade já pratica na intimidade: cuidar é trabalho; é economia afetiva que precisa de direitos, contribuições e garantias.
Enquanto observador dos ritmos sociais, vejo essa demanda como uma semente que precisa de solo preparado — políticas claras e financiamento estável — para florescer. Espera-se que a apresentação na Câmara desencadeie um debate institucional capaz de transformar em proteção concreta a dedicação silenciosa de milhares de famílias.
Nota: documento apresentado em 27/01/2026 pela CFU na Câmara dos Deputados. A reportagem preserva as reivindicações completas expostas pelo documento da associação.






















