Por Riccardo Neri — Um novo tipo de plataforma aérea promete mudar a forma como interventores e indústrias enfrentam incêndios: o FireDrone, desenvolvido pelo laboratório federal suíço Empa sob a coordenação de Fabian Wiesemüller e David Häusermann, foi projetado para operar em ambientes a até 200°C e transmitir imagens térmicas em tempo real, reduzindo exponencialmente o risco humano nas operações mais perigosas.
Hoje, grande parte das buscas em estruturas em chamas exige que os bombeiros entrem fisicamente em espaços instáveis e cheios de fumaça. O FireDrone foi concebido como uma camada de visão remota — um alicerce digital — capaz de mapear incêndios em armazéns, estacionamentos, túneis e grandes edifícios onde a visibilidade é quase nula. Segundo os pesquisadores, mais de dois terços das mortes entre os bombeiros estão relacionadas a fumos tóxicos e mais de um terço das intervenções envolvem substâncias perigosas; nesses cenários, uma plataforma que suporta calor e fumaça torna-se uma vantagem decisiva.
O diferencial térmico do projeto reside na proteção dos componentes sensíveis por um isolamento patenteado em aerogel de poliimida, um material ultraleve composto majoritariamente por poros de ar dentro de uma matriz resistente ao calor. Esta geração de aerogel, desenvolvida pelo grupo de Shanyu Zhao, concilia elevada resistência térmica e flexibilidade mecânica, permitindo encapsular eletrônica, motores e sensores em uma única estrutura compacta. Uma gestão térmica interna complementa o isolamento, resfriando e monitorando continuamente a eletrônica para manter a operação dentro de limites seguros.
Enquanto drones convencionais começam a deformar ou perder funcionalidade já por volta dos 40°C, o drone resistente ao calor da Empa opera em temperaturas muito superiores. Equipado com uma câmera infravermelha, ele transmite imagens térmicas de alta resolução para um monitor grande no controle remoto, permitindo que várias equipes avaliem a situação a partir de uma distância segura. Sensores adicionais podem medir temperaturas pontuais e detectar gases liberados pelo incêndio, transformando o aparelho em uma estação móvel de monitoramento.
Outro ponto crítico é a capacidade de atuar em ambientes fechados. Em edifícios e túneis, o GPS não funciona; por isso, o FireDrone incorpora sistemas de assistência ao pilotagem e de localização projetados para operar sem sinal satelital, oferecendo navegação confiável em missões indoor onde drones tradicionais não se mantêm operacionais. Essa característica abre uso imediato em inspeções industriais e operações de emergência sem expor pessoal a riscos desnecessários.
Além do socorro, as aplicações industriais são evidentes: cementíferas, siderúrgicas, refinarias e incineradores frequentemente exigem longos períodos de resfriamento antes de inspeção humana, com implicações operacionais e de custo. Um drone capaz de entrar em estruturas aquecidas pode reduzir tempos de espera e custos associados à verificação pós-incêndio.
Do ponto de vista do planejamento urbano e da segurança pública, o FireDrone representa uma expansão do sistema nervoso das cidades: sensores móveis que convertem calor e fumaça em dados acionáveis. A integração dessa tecnologia aos protocolos de emergência e à infraestrutura de comando e controle exigirá testes operacionais, certificações e formação das equipes para que a camada digital realmente reduza danos humanos e materiais.
Em suma, o projeto da Empa não é apenas um avanço em materiais ou aerodinâmica: é uma peça de infraestrutura sensorial projetada para operar onde as estruturas físicas falham. Como qualquer tecnologia que atua no cerne das operações críticas, a utilidade real virá da sua incorporação disciplinada ao quadro regulatório, à logística de emergência e à arquitetura digital das cidades e das plantas industriais.






















